Vamos resolver aqui mesmo

por Luís Vilela

Sexta feira, estavam precisando de médico para fazer atendimento noturno em uma unidade básica de saúde, plano de fazer horários alternativos para atender trabalhadores que não podem em horário comercial. Bom, lá vou eu.

Décima paciente da noite, 36 anos.

– Olá! Em que posso ajudar?

– Então, doutor, ontem fui no UPA e tenho 3 cartas da médica que me atendeu lá:

Primeira: encaminhar neurologia por cefaleia recorrente.

Segunda: solicitar tomografia de crânio por cefaleia recorrente.

Terceira: encaminhar para o psiquiatra por depressão e ansiedade.

Amasso o amontoado de papel formando uma bola e faço uma cesta no lixo a cerca de 2 metros. A paciente ri. Eu penso: ainda bem.

– Então, estou vendo que é casada aqui na ficha. Você tem filhos?

– Tenho 2: uma de 23 e outro de 20.

– Vocês moram juntos?

– Sim, tem mais uma neta. Minha filha se separou recentemente.

– Seu marido trabalha de que, tudo bem no casamento?

– Ele é pedreiro. Está tudo bem, ele não para em casa, é muito trabalhador.

– E você trabalha de que?

– Eu trabalho de auxiliar de cozinha. Sabe doutor eu sempre fui ansiosa. Mas piorou no último mês no trabalho.

– Por quê?

– Por exemplo: A gente tem que começar a colocar na mesa por volta das 10 horas. Eu fico muito ansiosa. Não pode atrasar.

– E às vezes você sente batedeira no coração? Tremor?

– Às vezes tenho esses negócios aí.

– Você chora fácil?

– Choro. Mas fala com um sorriso no rosto e tem olhos vibrantes.

– E chora por quê?

– A não sei doutor. Sou manteiga derretida. Choro às vezes e nem sei o porquê.

– E você está triste?

– Às vezes fico triste.

– Tem pouca vontade de fazer as coisas?

– Faço tudo normal.

– E essa dor de cabeça, como que é? Onde é?

– Aqui na nuca. E aqui na testa um pouco. Piora quando eu fico mais estressada. Como um aperto, uma coisa ruim.

– No final do dia é mais comum?

– Acho que sim.

– Faz tempo que foi no oftalmologista?

– Uns seis meses, mudou pouca coisa no meu óculos.

– Dá vontade de vomitar ou sente mais alguma coisa junto com a dor de cabeça?

– Não.

-Hummm … Tempo para reflexão. O que mais? Você está dormindo bem? Tem algo a mais que queria falar.

– Às vezes tenho insônia. Quando fico preocupada. E estou com pouco apetite.

Hummmm

– Acho que tenho 3 boas notícias: Você não precisa de nenhuma daquelas 3 cartas. Acho que precisa de alguém que entendesse um pouco o contexto da sua vida, isso pode levar um pouco de tempo que é difícil em uma unidade de urgência.

– Que bom. Mas o que eu tenho?

– Me parece um quadro depressivo e ansioso leve, que tem relação com a dor de cabeça que é do tipo mais comum chamada de cefaleia tensional.

– Acho que é isso mesmo.

– Que bom que você concorda comigo. Isso facilita o tratamento.

Às vezes mudança no estilo de vida já resolveria o problema. Duro que eu estou aqui só de quebra galho então não consigo te avaliar em um retorno.

– Você não tem consultório particular?

– Não tenho. Não sobra tempo. Sorrio feliz de ver o ganho da confiança.

– Não têm algum remédio que pode me ajudar nesses sintomas?

– Tem várias opções. Vou prescrever um para tomar a noite. Acho que em 3 semanas estará bem melhor. Depois volta aqui neste posto mesmo. Se tiver boa resposta seria interessante manter a medicação por no mínimo 6 meses após a melhora. É comum sentir boca seca com esse remédio, também pode te deixar um pouco ressecada. Por isso quero que tome mais água, mais frutas como mamão, ameixa e laranja e seria muito interessante que fizesse atividade física pelo menos 150 minutos por semana.

– Qual atividade física?

– Pode ser uma caminhada 30 minutos 5x por semana. Pode ser andar de bicicleta, academia. Pode ser uma combinação dessas atividades um dia você caminha outro vai na academia, por exemplo. Enfim, principalmente achar uma atividade que você goste e fique animada. Vários benefícios da atividade física, pode propiciar um sono melhor, prazer, melhorar o intestino, descarregar as energias de um dia a dia difícil. Então só não pode ficar parada.

– Obrigada.

– De nada!

Por enquanto não tinha novos pacientes para atender. Tranquilo ali, pego um copo de água. Vou até a recepção para ver o pessoal. Tudo tranquilo e vazio. Acho que esse pode dar um causo, penso no silencio do consultório. E começo a escrever no bloco de notas do celular.

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