Flores e besouros

por Mariana Duque Figueira

A medida que entra na casa de alguém, você vai sendo bombardeado por uma série de informações valiosas sobre aquela pessoa. História e condições de vida, organização, auto-cuidado, relação com os outros moradores da casa. Tudo ali em segundos, desde o portão de entrada até a sala ou o quarto onde a conversa normalmente ocorre.

Visita domiciliar é de uma intimidade e potência enormes, – sempre que bem indicada, e não como um indicador numérico vazio a ser batido todo mês. Às vezes, vem de brinde um café de coador com um bolo acabando de sair do forno. Outras vezes, o tempo está escasso e só cabe um copo de água bem rapidinho, para hidratar depois de subir tanta ladeira no solzão.

E numa certa manhã, eu fui entrando no apartamento absorvendo tudo o que via daquele mundo: parede com alguns bordados pendurados, muitas flores (reais, de plástico, na toalha de mesa, na saia de Suzana), nenhuma foto numa sala muito bem arrumada e com um enorme tapete.

O que me disseram de Suzana é que era recém-chegada na área, morava sozinha, e tinha um sotaque um pouco diferente (que a agente de saúde achou bem engraçado, inclusive). O que eu via em Suzana era uma senhorinha plácida, com uma prótese auditiva, e que me olhava de um jeito que eu ainda não tinha entendido se era convidativo.

Conversa indo, eu descobri que veio há décadas da antiga Iugoslávia, que morava com o marido em outro bairro da capital, até que ele faleceu e ela se mudou para cá. Conversa vindo, eu entendi que era bastante culta, que tinha um diabetes hipermedicado, e que seu nome significava lírio em hebraico.

Descobri o porquê das flores, pensei. Não descobri o porquê dos olhares, mas parecia que estavam direcionados às minhas mãos. Concluí que era meu esmalte preto, talvez fosse chocante demais para uma vovozinha.

Combinamos que diminuiríamos os remédios em excesso, e senti que foi um momento em que comecei a ganhar sua confiança. Decidi então arriscar e comentar sobre a minha impressão:

– Notei que a senhora tem reparado bastante nas minhas mãos. É o meu esmalte?
– Desculpe. Estava aqui pensando se quem pinta a unha de preto hoje em dia ainda é porque gosta de rock.
– Gosto bastante. A senhora gosta de rock?
– Adoro Beatles, conhece?

Acabou que atrasei uns dez minutos para a próxima visita, pois não conseguimos decidir sobre Sgt. Pepper ou The White Album ser o nosso disco favorito.

Para eu me lembrar todos os dias: envelhecer é injusto em inúmeros aspectos, esquecer que o corpo de agora pode não fazer jus à alma de sempre é mais injusto ainda.

4 comentários sobre “Flores e besouros

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