Fim de tarde

por Ana Paula Marcolino

20160511_174657

Sexta final de tarde é historicamente aquele dia menos frequentado em algumas unidades. Essa não foi diferente. Estava tudo tranquilo. Por volta das 16:30 eu paro meus 15 minutos pra o lanche.
Minha amiga da recepção aparece com uma carinha que já conheço. Eu olho sorrindo e digo: quem?
Ela: a Bruna, doutora Ana.
Eu: Já disse que não precisa me chamar assim, né?
Ela: é costume! É a Bruna, Ana. O bebê está gripado. E ela está bem magrinha (minha amiga sabia o motivo… eu também).
Eu: Pede a ela uns 10 minutos?
Ela: Pode deixar…
Termino meu sandubinha e vou.
Começo a conversa como de costume. Um sorriso no rosto e cumprimentos amorosos. Deus, como gosto do que faço! Bruna parece angustiada (e está magra de fato), mas ensaia um sorriso tímido. Conta dos sintomas do bebê, de como ele está magrinho, de como o marido voltou à cadeia. Ouço tudo. Examino o mocinho. Vejo que é aparentemente um resfriado comum, sem complicações. Tranquilizo a moça, explico tudo na linguagem que a MFC me ensinou a ter. Ela mostra entender, mas tem algo diferente no olhar de Bruna. Eu sei que tem! Mas ela não fala, por mais que eu pergunte…
Bruna, você está bem? – pergunto. Ela responde que sim.
Por acaso do destino, o bebê fez cocô. Digo que ela pode trocar ali até que eu escreva os medicamentos e orientações (sempre faço isso). Os olhos marejados fitam os meus. Bruna, o que foi? Estou aqui pra ajudá-los! – sigo na tentativa de saber o que houve.
Doutora… eu não tenho mais dinheiro pra comprar fralda.. mas estou com vergonha demais de pedir às pessoas! – e segue num choro quase de soluço – a senhora pode me ajudar nisso?
Eu posso! – e me pergunto se devo…

5 comentários sobre “Fim de tarde

  1. Me formei há 10 meses e estou há dois na APS, me preparando para as provas de residência para MFC. Tenho compartilhado relatos curtos na minha rede social, o que me ajuda a refletir a minha prática e a vida. Sempre me pergunto qual o limite para a minha atuação frente a tantos problemas de vulnerabilidade da área onde atuo…

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ô, Renato… esse relato escrevi após 5 anos de Atenção Primária e veja o quanto me deparo com limitações de minha atuação? Acho que surgindo o dia no qual estaremos totalmente seguros de como agir, algo estará seriamente adoecido em nossa prática!
      Bj

      Curtir

  2. Olá,
    Eu não sou da área da saúde e esse blog me foi apresentado por um médico “MFC”.
    Lendo esse relato, pergunto:
    Para economizar o dinheiro que a pessoa não tem (não falarei no meio ambiente), não existe nenhuma solução ao estilo “fraldas de pano”, as únicas do passado, e que darão trabalho para lavar mas que custarão “apenas água e sabão”?

    Curtir

    1. Oi, Eduardo… desculpe, só agora li o comentário. Agradeço o contato e realmente é algo a se pensar. Creio q estamos facilitando a vida, enquanto sociedade “moderna” e dificultando pra o mundo digerir td que temos feito. Porém, naquele momento, foi difícil digerir tudo o que se passou na cabeça, diante de uma família usuária de crack, um homem preso, um bebê necessitado de cuidados… uma família carente de auto cuidado. .. talvez não tivessem organização psíquica suficiente pra pensar em usar fraldas de pano..
      Você tem filhos? 🙂

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s