Ano do Macaco

José Carlos Arrojo Júnior

Reconheço o sobrenome na lista de pacientes, me culpo por não reconhecer logo de cara quem é, me sinto péssimo médico de família por não lembrar do rosto, mas vejo escrito “Primeira Consulta” ao lado do nome.

Me tranquilizo, abro a porta do consultório, procuro por um rosto conhecido, traços semelhantes… percebo uma feição aflita. Chamo o nome e esse mesmo “rosto” respira fundo e levanta. Entra no consultório e senta na cadeira. Me apresento, pergunto no que posso ajudá-la.

“Doutor, estou com dificuldade pra engravidar. Moro na China com meu marido e vim passar um período com meu pai, que o Sr. já atende. Ele me falou que o Sr. é médico de família e cuida de tudo, que pode me ajudar! Tenho só 2 meses antes de retornar pra lá.”

Visivelmente abalada, como se existisse um peso gigantesco nas costas, curvada, olhos estalados, molhados pelas lágrimas de alguma esperança.

Pergunto das questões técnicas, mas coça na minha garganta a fala essencial:

“Vejo que você está muito ansiosa, deve estar querendo muito essa criança. Tem mais alguma coisa que te preocupa?”

Choro de rio turbulento onde a água bate nas pedras da mágoa. Soluços como ondas quebrando sem parar.

“Meus sogros me pressionam muito, Doutor José! Dizem que tem que ser no Ano do Macaco, no período mais propício, que tem que ser menino, que o nome tem que ser auspicioso…” – soluços.

Coloco a mão no ombro, acalmo, ofereço lenço e falo:

“Podemos resolver isso juntos; estamos juntos nessa. Vamos fazer os exames, mas mais importante do que isso é acreditar em você, na sua essência e principalmente no amor que você terá pela criança que gerará. Se é importante para você lá na China que nasça no ano correto, vamos fazer de tudo pra isso acontecer, mas precisamos dar um jeito de recuperar a tua confiança em si mesma. Acho que você deve saber daquele provérbio chinês: não importa quantos passos você deu para trás, o importante é quantos passos agora você vai dar pra frente!”

Um sorriso, uma batalha ganha, o rosto sofrido se transforma. As lágrimas agora parecem gotas de chuva no campo ainda árido das possibilidades de uma vida plena.

O histórico ginecológico era complicado. Fizemos os exames e a cada vitória pela ausência de doença ou pelo tratamento de sucesso, uma comemoração no consultório, o reforço positivo e, principalmente, um brilho no olhar se reforçando!

Depois de quase 2 meses, chega ao fim a epopeia dos exames e dos tratamentos pra infertilidade (inclusive com pesquisa de infertilidade masculina do marido que ficou na China trabalhando).

Última consulta antes da viagem. Um abraço apertado, muito riso e choro. Um presente nas mãos.

“Doutor, obrigado por tudo. Trouxe essa mandala para o Sr. para deixar um pouco da sorte e da esperança que depositou em mim! Vou ficar com saudades do meu médico de família!”. Não aguento, caem lágrimas (juro que tento me segurar nesses momentos… mas preciso me segurar mesmo?!). Choro junto, dou meu contato. Sempre sinto em me separar de quem cuido! Ô coisa chata!

3 semanas e alguns dias depois se passam e recebo uma mensagem de número estranho:

“Vitória sem luta é triunfo sem glória! Doutor estou grávida! E nasce em janeiro, ainda no ano do Macaco! Obrigada por tudo! Beijos!”

Leio durante a reunião de equipe. Respiro aliviado com um sorriso grande no rosto e com algumas lágrimas que se acumulam nos olhos sem cair.

“O que foi, Zé?!” me pergunta a técnica de enfermagem.

Me recomponho meio envergonhado.

“Ah, é que é o Ano do Macaco!”.

4 comentários sobre “Ano do Macaco

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