Na ocasião de um dia internacional da mulher

por Giulia Balbão

Tem uma frase da Alice Ruiz, maravilhosa, bem assim: depois que um corpo comporta outro corpo, nenhum coração suporta o pouco. ❤

Ela faz todo o sentido diante da história que segue… observe.

“Na sexta passada eu acordei assustada, acendi a luz e vi que eu  estava sangrando muito, Dra Giulia… já era tarde da noite, eu fui ao pronto socorro da maternidade e o médico me passou remédio para dor, e me disse pra ir embora. Eu não queria ir embora sangrando tanto, eu não estava com dor! Ele não me examinou, ele nem me olhou. Sai de lá, minha família me emprestou dinheiro, e fiz um ultrassom particular, cedinho: meu filho tinha batimentos cardíacos normais. Eu voltei ao hospital para mostrar o exame, pois eu continuava sangrando, estava me sentindo fraca, e lá outra médica me disse: ‘se isso for um aborto, lá na sua casa você espera isso sair. você não tem critério para ficar aqui.’
‘Isso’, Dra?”

E fez uma longa pausa, chorando, com a mão na barriga magrinha.

“No outro dia, com muita insistência, e eu ainda sangrava, consegui ser atendida em outro hospital, depois de horas. Ao ser examinada pela primeira vez em três atendimentos, ele me avisou que eu estava expelindo ‘isso’: o meu primeiro filhinho.”

Foi a primeira consulta daquele dia. Dia de pré natal. Resiliência, Giulia.

Foi um pré Natal cuidadoso, ela não perdia uma consulta, conversava bastante, tinha todos os exames e vacinas. Passava a mãozinha pequena com satisfação na barriga, mesmo no início, quando a barriga ainda nem aparecia. Diz que não fuma, não bebe. Não usou medicamentos e outras drogas, não caiu da escada, não foi atropelada. E eu acredito..
Não teve febre, mal olhado, zika, raio, enchente. Azar, talvez…

Porque é mulher pobre. E mulher pobre nesse país sofre de uma catástrofe chamada negligência.
Existe violência obstétrica para mulher rica. Para pobre você acha que tem o que?

Primigesta. Para ela já era filho, já tinha nome, tinha berço, tinha mãe da mãe querendo ser avó.
A grávida queria parir.
Teve que expelir.

A mulher nesse país realmente não pode escolher interromper sua gestação, legalmente e amparada.
Se aborta é incriminada, e punida. Vão dizer que faltou religião, educação, amor. Opinião alheia não faltará. Pastoral, igreja, polícia, militantes pela vida não faltarão. Vai ter algema, camburão, vai ser avaliada por profissionais da saúde mental.

Se tem sua vida e a vida de seu filho negligenciada pelo sistema de saúde sucateado, lotado, moroso no atendimento à urgência, e/ou pelo profissional condecorado com o título de especialista, e então tem sua gestação interrompida, é o que?! Não tem pastoral nessa hora. Não tem camburão, não tem ninguém para dizer que faltou amor, que faltou educação, religião. Não tem psicólogo, terapia.
Nessa hora tem uma mulher voltando para casa de circular, sem filho, acordando cedo para conseguir um encaixe e chorar essa mágoa inteira para “a médica do posto”.

E se a médica do posto contar para vocês, há quem dirá que ela está acreditando muito na histeria e negação de uma mulher pobre e revoltada. Que essa história é só um exagero.

Isso tudo é só para lembrar que depois de amanhã eu não quero flor nem esse tipo de exagero. É difícil lidar com ele.

Eu quero autonomia em relação ao meu corpo de mulher. E quero que minhas iguais sejam respeitadas, bem como suas vontades e necessidades de saúde.

Esse texto não quer te convencer de nada. Esse texto sou eu dizendo que como mulher eu quero poder escolher, e quero que minha paciente não seja negligenciada, e escolha.

3 comentários sobre “Na ocasião de um dia internacional da mulher

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