A beleza da morte

por Alexina Witt

Equipe:

Não haviam visitas planejadas para aquela manhã. Passava um pouco das oito e nos organizávamos para começar a atender, quando Eunice, filha e principal cuidadora de D. Maria, pediu licença e entrou no consultório. Estava séria, com marcas de cansaço no rosto, angústia presa no peito, contendo o choro. Em voz baixa, trêmula e com a garganta travada, ela perguntou:

-“Dra., acho que a hora está chegando! Vocês poderiam ir lá em casa?”.

Fomos juntas, as três, Eunice, a enfermeira e eu.

Eunice:

Ela, a filha, era muito simpática, sorria com facilidade e sempre estava bem humorada, mas, a  essa altura, encontrava-se exausta. Cuidava muito bem da mãe e elas tinham uma relação muito bonita. Havia aceitado a decisão de D. Maria, embora isso lhe causasse uma dor que sempre lhe apertava o coração. Tinha o apoio de seu esposo, o que lhe dava forças para continuar de pé, enfrentando a situação e o que viria depois.

D. Maria:

D. Maria, nos idos de seus 70 e poucos anos, estava em fase terminal e quando soube do câncer, após ter sido submetida ao que ela havia chamado do “pior exame que havia feito na vida” (cistoscopia), recusou-se a voltar a qualquer hospital ou médico fora de seu bairro. Ela era uma pessoa inteligente, serena, educadíssima e sempre ia se consultar estando muito bem arrumada. Com a suavidade que lhe era peculiar, e com a decisão valentemente tomada, após uma conversa franca e aberta que tivemos em sua casa, comunicou à família que queria morrer na sua cama, em paz.

Eu, pessoa:

De início, havia me dado um grande medo. Como é que eu cuidaria de D. Maria, morrendo, em casa? Como seria com a minha avó, que tinha uma DPOC grave, quando chegasse a hora dela? Perguntava-me a todo instante se daria conta de oferecer um bom cuidado para D. Maria nos momentos finais e se teria a coragem para fazer o mesmo com a minha avó, futuramente, caso ela nos solicitasse o mesmo. Tentava não deixar transparecer que eu também estava abalada e angustiada. Os meus receios pessoais se misturavam aos da filha, mas precisava me manter calma e segura, para poder dar o apoio necessário a esta família e a D. Maria.

A família e a amiga, em casa:

D. Maria estava em sua cama, em sono profundo, sem dor, serena, cheirosa, em lençóis impecavelmente limpos e, certamente, tranquila por ter tido o seu desejo respeitado. Estavam em casa três dos quatro filhos, o genro, a neta e a melhor e mais antiga amiga de D. Maria. Disseram-me que o irmão que faltava estava por chegar. Sentei-me próximo à cama e, enquanto olhava para ela, também a tocava, tomava-lhe o pulso mais uma vez, mantinha a fronte dela seca com uma toalhinha e molhava-lhe os lábios secos. A amiga, então, começou a cantar as canções preferidas de D. Maria, como uma forma de celebrá-la e oferecer-lhe carinho. Lindas e suaves canções. A música foi nos acalmando a todos. A atmosfera ficava cada vez mais tranquila e uma paz foi sendo construída. Entre um cafezinho e outro, conversávamos, ríamos e, vez por outra, alguém chorava, já com saudades. E assim passamos a manhã, com D. Maria me ajudando a aprender a cuidá-la. Fomos almoçar e ficaram D. Maria e os quatro filhos. Foi quando ela decidiu ir…Ao retornar a casa, a melhor amiga veio em minha direção, com os olhos marejados, mas também com um sorriso na boca e me abraçou, dizendo –“Dra., obrigada por ter ficado com a gente! Estou feliz e tranquila por que eu nunca havia visto uma morte tão bonita”.

5 comentários sobre “A beleza da morte

  1. Momento ímpar e sem igual… Estava lá e tive a oportunidade e a honra de acompanhar a médica fabulosa que é Alexina e aprender muito com essa família que nos permitiu estar presentes em um momento tão difícil… Tenho a certeza que cumprimos nosso papel e aprendemos mais com essa família tão forte e generosa do que pode-se imaginar… E tb chorei… Impossível não verter lágrimas lendo e ainda mais lembrando… Passando o filme na minha cabeça ao ler tão belo relato!!!

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  2. Parabéns pelo lindo trabalho q desenvolve no seu território. O respeito ao próximo e sentir a subjetividade da relação tanto com a saúde e morte é fundamental.

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