Surpresas

por Fabricio Mattei

Era um dos meus últimos meses de residência médica. Já enfrentava a difícil tarefa de me despedir de algumas pessoas atendidas ao longo daqueles dois anos, com quem tinha construído fortes laços. Minha intenção, naquele período, era não me apegar a novas situações para as quais não poderia dar seguimento. Mal sabia eu que isso era impossível.

Perto do fim de uma manhã daquelas bem corridas, um novo boletim entrou na fila do acolhimento. Todos os estagiários já estavam ocupados, então resolvi eu mesmo atender (eu estava responsável pela sua supervisão, naquele dia). “Coisa rápida”, alguém comentou. “Apenas o resultado de um Beta-HCG”.

Antes mesmo que pudesse chamá-la, outra profissional da equipe me puxou para um canto. “Acho que é positivo. Fabricio, ela já tem cinco! Está desesperada!”. Sem querer, começava a me preocupar. “Tu nem imaginas as condições da casa…”; Todo o tipo de imagem passou pela minha cabeça, baseadas em outros casos teoricamente semelhantes com que já havia me deparado. Chequei o exame, já disponível no sistema eletrônico e efetivamente ali constava: “Beta-HCG: >10000 mIU/ml”. Positivo.

Quando chamei Daiana, não me surpreendi com seu rosto maltratado, trinta e dois anos que valiam muito mais. Seu nervosismo era evidente, contudo, e sem dúvida me contaminou. Algo me dizia que a notícia poderia não ser bem recebida, e de fato isso causava um considerável grau de apreensão. Perguntei, como se não soubesse a resposta: “Como posso lhe ajudar hoje?”. “O resultado do exame, doutor”, disse, impaciente. “O que você acha que vai dar?”, perguntei, poucos milissegundos depois me questionando por que diabos não acabava com aquela tensão de uma vez. “Positivo”, balbuciou. Ao responder, olhava atentamente em meu rosto, e percebi que confirmei sua suspeita antes mesmo de formular as palavras. Com um leve movimento de cabeça, concordei: “Exatamente”.

O que se passou nesse momento é extremamente difícil de descrever. Não identifiquei nela a frustração que esperava encontrar. Lágrimas e gargalhadas se juntaram em uma única expressão que, ao menos na língua portuguesa, é órfã definições. Ela tentava organizar o pensamento enquanto eu buscava um lenço de papel para enxugar sua face. “Pode vir, doutor. Pode vir. Vai ser muito bem criada, como todos os outros. Vou dar o meu melhor pra ela, pode acreditar. A Jéssica, minha mais velha, de dezesseis, foi morar com o namorado, então sobra um espacinho. Aliás, essa é outra que vai aparecer grávida por aí um dia desses”. Curioso sobre o tratamento no feminino, ouvi: “É menina, tenho certeza. Mariana.”

Suas frases eram entremeadas por soluços e gargalhadas. Pela primeira vez, nos dez anos que se passaram desde a entrada na faculdade até ali, minha frieza tantas vezes imposta (ou seria auto-imposta?) cedeu sem resistência. A água correu pelo meu rosto, assim como fazia no dela. E não senti nenhuma necessidade de me opor a esse evento sem precedentes em minha experiência. Por alguns segundos, fizemos apenas isso: choramos e rimos em conjunto.

Dei início ao pré-natal, e a vi ainda algumas vezes antes do fim da residência. Gostaria de pensar que passar o atendimento para outro médico foi tão difícil para ela quanto foi para mim, mas acho pouco provável. O vínculo – aquele que eu queria evitar, lembram? – insistiu em ser uma via de duas mãos, e me alcançar quando eu menos esperava. Foi um momento inesperado de vulnerabilidade compartilhada. E uma marca que ficou.

3 comentários sobre “Surpresas

  1. Meu filho!
    Esses relatos, seus e de outros médicos “da” família, só fazem me emocionar e acreditar um pouco mais que este mundo tem algumas soluções para os afetos humanos.
    Que mais estudantes sigam esse caminho lendo essas histórias de VIDA!

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  2. Lindo!
    Esse tal de vínculo constrói coisas maravilhosas em nós. Às vezes não sei a quem mais ajuda, nós ou pacientes rs.
    Belo texto, parabéns!

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