A tal da febre interna

Carolina Reigada

Há cerca de duas semanas, percebi uma paciente conhecida em pé em um canto da sala de espera. A conheci há cerca de 3 ou 4 meses. Ela trouxe o marido, que estava com a pele completamente amarela, para consulta – tinha medo que fosse hepatite.

“Ele nunca se cuida, sabe, doutora? Tive que arrastar ele até aqui.”

Após examinar, tive a impressão – ou a certeza – de câncer. Encaminhei com urgência, conseguiu fazer os exames no mesmo dia (já ficou internado). Infelizmente, veio a falecer cerca de um mês depois.

Retornou para agradecer o atendimento. Disse que não estava bem, mas não era para estar bem nesse momento, mesmo.

Mas, enfim, há cerca de duas semanas, a notei parada no canto da sala de espera, parecia angustiada. Quando fui falar com ela, ela foi muito ríspida. Acusou a clínica de não servir pra nada, que já havia ido mais de 4 vezes e não conseguiu atendimento. E que inclusive ia embora novamente nesse momento, não aguentava mais esperar para ser chamada!

Nesse momento, eu respirei fundo (com a única intenção de me acalmar) e coloquei a mão no ombro dela. Disse que eu preferia que ela ficasse, pois queria cuidar dela.

Ela esperou mais vinte minutos. Quando entrou no consultório, se jogou na cadeira e listou os sintomas: dor no pescoço, dor na cabeça, peso nos ombros, febre interna, mal-estar, cansaço, insônia. Depois deles, listou os exames que queria: ultrassonografia, hemograma, radiografia.

Eu esperei mais um pouco. Depois de um tempo de silêncio, perguntei: mais alguma coisa está preocupando a senhora?

Ela disse que não era pela morte do marido. Ela estava bem quanto a isso. Mas havia encontrado uma massa na vagina. Foi aí que ela soltou os braços, que estavam cruzados:

“E se…se ele deixou alguma coisa em mim? Alguma coisa ruim?”

Pedi para examinar. Ela concordou, já com a postura mais aliviada. No exame, concordamos que era…um pelo encravado.

Depois que falei, ela concordou que parecia mesmo só um pelinho encravado…como não percebeu antes?

Enfim, concordamos no diagnóstico. Depois do exame, ficou mais calma. Até riu. Gargalhou e disse: “Nossa, tomei de tudo que é remédio, mas agora sim, essa febre interna passou!”

E foi embora. Nenhum exame solicitado. Nenhum grande diagnóstico. Mas a febre, essa estava curada.

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