Matador de passarinho

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por Antônio Modesto

 

Às vésperas de me mudar pra São Paulo pra fazer residência, tive uma despedida dos amigos em um show no Odeon BR, na Cinelândia – um lugar que eu certamente levaria no meu coração quando saísse da cidade. Embora tenha me formado na UFRJ, não tirei meu primeiro CRM no Rio, porque logo iria embora; assim, o carimbo amarelo com o CRM paulista estava no bolso, como um símbolo de passagem.

Quem cantava aquela noite era Rogério Skylab. Se eu dissesse que em uma música ele aconselha uma mulher a entrar no banheiro, fechar o basculante e ligar o gás, e que em outra ele diz que matar passarinhos ajuda a espantar o vazio de existir, eu poderia gerar uma má impressão. Prefiro pensar no cantor como um esculhambador geral.

Ao fim da última música, Rogério – um homem franzino, de cabelos grisalhos, que lembra vagamente Fernando Gabeira – levanta um dos braços triunfalmente e cai no chão. Aplausos. Ele fica no chão. Aplausos. Continua no chão. Os aplausos escasseiam, as pessoas começam a ir embora, e ele no chão. “Gente, o cara tá lá deitado ainda”, eu digo pros meus amigos. “Você vai lá ver se ele tá passando mal? Agora você é médico!”. Hesito. Ninguém mais aplaude, as luzes do cenário apagam e ele continua lá, deitado.

Deixo os amigos pra trás e fico à beira do palco, onde encontro aquele frágil senhor deitado, o microfone ao seu lado. “É ISSO AÍ, ROGÉRIO! FICA AÍ MERMO!”, diz um espectador. Um assistente da banda começa a recolher os cabos, e Rogério deitado, irresponsivo. Respira discretamente.

“Será que o cara desmaiou?”, alguém pergunta do meu lado, e foi o suficiente pra nós dois subirmos no palco e agacharmos do lado do sujeito, chamando seu nome. Alguém da produção se aproxima.

“Eu sou enfermeiro, pode deixar”.

“Ah, legal, eu sou médico”

“Eu sou enfermeiro, ele é médico, tá tudo resolvido. Rogério!”

“hmmm”, ele se manifesta.

“Vamo levar ele lá pra dentro”.

Então me vi com uma semana de registro profissional, na minha festa de despedida, prestes a me mudar pra São Paulo, carregando Rogério Skylab do palco do Odeon BR para o seu camarim.

Tendo dado sinais de vida mais concretos no caminho, sentamos o homem em um sofá. “Meio caído esse camarim”, pensei, em um cômodo branco com um sofá de alvenaria, sem nenhum come ou bebe à vista.

“Por que vocês me trouxeram pra cá?”, perguntou, como se estivesse saindo de um transe.

“Você tava caído no chão, não respondia, a gente te trouxe pra cá”, disse o enfermeiro.

“Vocês acham MESMO que eu tinha desmaiado?”

Olho pro enfermeiro e respondemos em uníssono: “achamos!”

“Eu não estava passando mal… Eu tinha tudo planejado… Eu deitei no chão, as luzes iam apagar, e eu ia sair do palco quando as cortinas fechassem!”

Fiquei sem jeito de pedir um autógrafo.

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