Religiosidades

por Carla Rezende

Dona Noemia adentrou o consultório com cara de quem estava ali obrigada, já

querendo dar meia-volta. Disse boa tarde, puxou a cadeira, sentou-se fazendo uma

careta de dor e ficou olhando pra mim, enquanto eu passava a vista nas últimas

anotações de seu prontuário.

“Aqui está dizendo que a senhora é diabética, mas sua taxa de glicose está muito

alta… deixou de tomar o remédio, D. Noemia?”

“Não vou mentir, deixei sim, doutora.”

“E por que a senhora resolveu deixar de tomar o remédio da diabetes?”

“Porque eu não aceito ter essa doença.”

Por um instante, passou pela minha cabeça: me lasquei! E ela voltou a falar:

“E também eu sei que Deus, nosso Senhor, vai me curar!”

Pronto. Mais essa agora!

“Mas D. Noemia, Deus é tão ocupado, tem tanto o que fazer por aí… e a senhora

bem que podia ajudá-lo um pouquinho: tenho certeza de que pra Ele seria mais fácil

curar a senhora com as taxas de glicose mais baixas, ia dar menos trabalho pra

nosso Senhor se sua diabetes tivesse pelo menos um pouco mais controlada.”

“Minha filha, Deus é onipotente, não tem nada que Ele não consiga fazer, não existe

dificuldade pra Deus. E eu acredito e estou rezando muito pra que Ele me cure!”

Como é que eu, uma simples mortal, vou lutar contra a onipotência desse Deus? Meu

Deus, me ajude a ajudar essa mulher! Foi quando ela falou:

“Ele disse: Faça a sua parte que Eu te ajudarei!”

Dei um pulo por sobre a mesa, agarrei as mãos de D. Noemia e quase gritei:

“Repita essa frase que a senhora acabou de dizer bem alto!”

Ela olhou pra mim assustada, e com os olhos esbugalhados repetiu:

“Faça a sua parte que Eu te ajudarei!”

“Tá vendo, D. Noemia? Foi nosso Senhor quem disse, faça a sua parte! A senhora

não está fazendo a sua parte, então, como é que Ele vai lhe ajudar?

Ufa! Essa foi por pouco! Mas se o Deus de D. Noemia não corresse pra me dar uma

mãozinha…

***
Sandra veio trazer a filha de pouco menos de 1 ano para a consulta de Puericultura.

Comecei a fazer perguntas sobre a alimentação, verifiquei o cartão de vacinas, a

curva de crescimento… Então perguntei:

“O que é que ela fala”

“Ela diz papai, mamãe, água, ai zezuis…”

“Ai zezuis?”

“É porque a minha mãe, que vive na nossa casa, sempre que está com dor fica

dizendo ‘Ai Jesus, ai Jesus!’ Aí a menina aprendeu!”

Foi a primeira vez que escrevi num prontuário que uma criança tinha aprendido entre

as primeiras palavras “ai zezuis!”.

2 comentários sobre “Religiosidades

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