Bolo com Sustância

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Toda quarta-feira passamos a atender a Elisabete, ou Bete dos Bolos, como gostava de ser chamada, já que todos da comunidade a reconheciam como a maior boleira da região. De bolos simples a recheados, Bete fazia todos e, de fato, eram muito bons (sucesso das reuniões de equipe)!
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Bete, já com 42 anos e com obesidade importante, resolveu engravidar novamente após 20 anos do nascimento da sua filha Daniele. Desde o início da gestação ela já avisava: “Doutô, tive pressão alta na gravidez da minha menina e perdi 2 bebês depois dela. A gravidez foi de risco, Doutô.”
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Dito e feito! Foi só a gestação de Bete evoluir que a pressão arterial começou a aumentar em níveis estratosféricos associando todos os outros comemorativos.
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Resolvemos montar um projeto terapêutico para Bete, seguindo toda quarta feira seu pré-natal e incluindo a participação da equipe multidisciplinar da unidade básica de saúde (psicóloga, nutricionista e outros).
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Foram 33 semanas de muito esforço por parte dela e da equipe para conseguir manter o peso correto, os níveis adequados de pressão, enfim, fizemos de tudo, mas o Vitinho veio ao mundo prematuro.
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Se antes o projeto terapêutico era só de Bete, passamos a incluir o Vitinho também. Não foi fácil!
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Nessa fase, nossa boleira já estava mais do que ansiosa para voltar a fazer suas iguarias e prometeu: “se o Vitinho vingar, Doutô, o primeiro bolo que voltar a fazer vai ser seu”.
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E até esse momento chegar foram muitos encontros com Bete, reforçando principalmente o aleitamento materno. Que dificuldade! Todo mundo da família dizia para ela que, por ter nascido prematuro, o menino precisava de leite de cabra, de vaca, de caixinha, em pó, todos, menos o materno! Bete resistiu tão bem que virou nossa maior “garota-propaganda” do aleitamento, levando até o Vitinho no grupo de gestantes para dar seu depoimento.
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Por fim, “Vitinho vingou”!
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Era uma quarta-feira em que tinha um curso de capacitação e fui dispensado dos atendimentos. Segundo contou a enfermeira da equipe, Bete chegou toda feliz à unidade e disse:
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– Vim trazer o bolo da vitória pro Doutô! – apontando para o embrulho nas mãos.
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A enfermeira a cumprimentou e avisou que eu não estava. Bete ficou meio decepcionada, mas retrucou:
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– Não tem problema! Ocêis guardem na geladeira que tá fresquinho. Esse bolo tá com sustância!
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A enfermeira agradeceu e disse que iria encaminha-lo a mim.
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O destino do bolo, no entanto, não foi, nem de longe, esse!
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Calhou que naquela quarta-feira era justamente aniversário da nutricionista e ninguém tinha comprado bolo bom, com o “padrão Bete Bolos”. Com aquela desculpa de que “vai estragar se esperar até amanhã”, a equipe não teve dúvidas: compraram velinhas e refrigerante e se locupletaram. Tiraram até foto do bolo e há relatos de que comentários como “a Bete voltou melhor do que nunca” foram feitos depois dos inúmeros pedaços deliciosamente degustados.
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Na quinta-feira chego à unidade às 7h e começo a atender. A enfermeira da equipe me conta do ocorrido e damos risada juntos, ainda que ela repita: “José, você perdeu a maravilha de bolo da Bete” e que meu estômago ronque associado a salivação intensa só de pensar.
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Lá pelas 12h, quando já havia terminado o último atendimento da manhã, Bete aparece com sorriso no rosto enquanto eu e minha enfermeira discutíamos um caso complexo:
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-“Oi Doutô! Que bom que encontrei o senhor por aqui antes do almoço! Vim saber se o senhor gostou do bolo! Gostou?!”
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Olhei para a enfermeira e vendo na cara de Bete tamanha felicidade, respondi:
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-Bete, não é a toa que você continua no posto de maior boleira da região; estava maravilhoso, muito bom! O que você colocou nele pra ficar tão bom?!
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Bete, já até emocionada com a minha fala, respondeu feliz:
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-Ah, Doutô, esse foi especial pro senhor. Esse foi bolo com sustância! Aproveitei tudo aquilo que aprendi aqui e botei um pouco do leite do Vitinho (referindo-se ao leite materno)!
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Juro que tive que me controlar nesse momento! Olhei para a cara da enfermeira e ela já não esboçava mais aquele “sorriso ostentação” que tinha antes quando me falava “do bolo que eu havia perdido”.
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Para não deixar Bete chateada, reconhecendo que aquela era uma da mais bonitas homenagens que recebi até hoje (uma vez que fazer o bolo com leite materno significava compartilhar da maior vitória de sua vida comigo), falei para Bete:
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-Tenho certeza que além da sustância você botou um bocado de amor aí, né?!
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Enquanto a enfermeira saía sorrateiramente do consultório, Bete responde:
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-E bota amor com sustância nisso, Doutô!

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