Passo a Passo

 por Maria Carolina Falcão

Dia de visita domiciliar. Um dia programado com antecedência, caso discutido com a equipe em reunião na semana anterior, prontuário checado antes de sair pra não esquecer nenhum detalhe. É daqueles dias que você se lembra de passar protetor solar, de tomar um café da manhã reforçado, de fazer uma marmita pra levar no caminho. É manhã de sair mais cedo de casa pra abastecer o carro e chegar na unidade já preparando a bolsa de visita: esteto, aparelho de pressão, lanterna, balança, luva, prancheta, receita… Um dia em que a gente pensa num calçado confortável pra caminhar, afinal vai passar um turno inteiro de rua em rua, de casa em casa, de família em família, passo a passo.

Em dia de visita domiciliar, tudo pode acontecer! A gente vai conhecendo e reconhecendo gente na rua. Vai conversando com o agente comunitário sobre o bairro, o morro, as figuras. Vai descobrindo mais da história do que podia imaginar. Vai vendo ponto de droga, ponto de bicho, feira livre, barbearia na calçada, a Kombi do peixe. Vai vendo creche municipal, creche em casa, criança na rua… Vê galinha, gato, cachorro, porco. Fala oi com o dono da birosca e todos os pacientes em acompanhamento de desintoxicação alcoólica bebericando sua pinga matinal. Encomenda a quentinha do almoço com a dona da padaria. Às vezes pega carona com o mototaxi, cujo bebê tá tomando mamadeira com farinha e quer que você marque consulta. Às vezes vai com o seu carro mesmo, dependendo da distância. Às vezes vai a pé, curtindo um sol do Rio de Janeiro, enquanto você atravessa até a outra ponta da comunidade, pelo atalho das antenas da Light. Vai conhecendo um visual que só aquela gente conhece, a cada dia vai ficando mais apegado, passo a passo.

A primeira visita hoje é longe, lá no fim da rua. O prédio é daqueles sobradinhos antigos, três andares, com escada estreita, mal cabe a bolsa de visita. De lá de baixo a gente grita, avisando que chegou. De lá de cima aparece uma mão abanando, avisando que já vai abrir. O portão estala, vamos entrando! Passo a passo vamos subindo, passando pelas portas dos vizinhos que não acompanham na unidade ainda. Ofegantes, somos recebidos pela cuidadora da paciente que já vai abraçando, agradecendo a visita, puxando cadeira, oferecendo água. Ela está lá no quarto, deitada.

Somos apresentadas: “aqui é a nova médica do posto, veio conhecer você”. Aperto de mão, sorriso gentil, aquela olhadela em volta pra me familiarizar com o contexto clínico e social. Deve ser um pouco mais velha que minha mãe, branca, cabelo ondulado, olhos claros, sorriso discreto. Sentada na cama, banho tomado, camisola de algodão bordada em ponto cruz, ela mesmo quem faz. Cama de casal, janela bem aberta, quarto arejado, vista pra rua. Estante com livros, cômoda com televisão, porta retratos antigos e novos. Uma cadeira com roupas, criado mudo com a Bíblia e os remédios: diabetes, pressão alta e dor. Alguns brinquedos no chão, sem tapetes, o pé esquerdo de um chinelo. Uma prótese de perna direita apoiada na cabeceira da cama. Passo a passo vou entrando naquele universo familiar.

Me fala da sua cirurgia de amputação da perna, bem abaixo do joelho, da boa recuperação e da filha que veio com a família morar com ela. Me mostra as receitas, me mostra o coto, me mostra a prótese e conta que está com alguma dificuldade de adaptação. Pergunto como está a fisioterapia e peço pra me mostrar como tem feito. “Tenho chamado minha ajudante”. Sem precisar falar nada, ouço aquele barulho gostoso de pequenos pés descalços vindo pelo corredor: “bobó!” Os pequenos passos vão se aproximando e a dona dos brinquedos no chão entra tropeçando na sua camisolinha bordada, cai e se levanta novamente: “Bobó!”. Esta já adaptou sua prótese, vai se apoiando na cômoda, chamando a neta para dar a mão. Passo a passo pelo corredor vão as duas com suas camisolinhas bordadas, motivando, ensinando, aprendendo e reaprendendo. Impossível saber quem está professorando quem. As vejo ir e voltar, segurando a prancheta, fotografando mentalmente aquele momento.

Orientações feitas, receitas renovadas, já estamos indo, tem mais gente pra ver. Agradecimentos, abraços, ternura. Da calçada vemos as duas dando tchau pela janela. Passo a passo vamos nos distanciando, rumo a outro universo familiar.É mais um dia de visita, daqueles que a gente guarda com carinho.

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