Fantasmas na escola

por Gabriela Machado

São 5:30 da manhã, eu acordo debaixo do meu edredon com cheiro de amaciante. Abro as portas da minha varanda e aprecio e recebo o céu. Isso, por que é hoje e são 5:30 da manhã e eu já assisti ontem um vídeo lindo falando sobre a receptividade, o que me tornou mais receptiva, eu acredito. Saio do quarto e coloco a água pra ferver, corto o limão em dois. Ligo a água do chuveiro, tiro minha roupa e sei que permaneço um pouco nela. Queria continuar dormindo e com meu pijama. Espero a água esquentar e entro debaixo dela, minhas células agradecem este abraço. O teto do meu banheiro é de vidro, então, mais uma vez eu recebo o céu em mim. Saio do chuveiro, visto minha roupa ( ando indecisa sobre qual roupa usar, ultimamente..a quem eu quero agradar com este gesto?), tomo minha água com limão, preparo o café, bebo dois copos cheios de café e como uma torrada com manteiga e uma geléia rica em antioxidantes que minha grande amiga trouxe pra mim do Canadá. Ela me ama e eu também, a ela. Entro no carro e pego o caminho que acho mais bonito. Só por ser mais bonito mesmo. Tem muitas árvores em volta e eu gosto de abrir a janela para recebe-las. Eu disse que ando receptiva. Tentando. Toca aquela música de Nanã. Sempre que eu entro nesse caminho de árvores ela canta pra mim e eu choro. Quando chego e estaciono o carro, o cenário é de muitas montanhas em volta. Um pé de morro é onde eu moro. E também um pé de morro é onde eu trabalho.
Ali o cheiro é típico. Destes lugares que não tem saneamento básico, nem muita ventilação entre as casas. São muitas casas. E baratas, ratos. Tem umas padarias, uma vendinha, um lanterneiro, a tia que vende tapioca e a barraquinha de pastel e caldo de cana.
Tem muitos cachorros ali também. E muitas crianças. Eu vou subindo a escada e uma mulher chama meu nome. Ué, como você me conhece? É que meu filho tem autismo! Você vai fazer um trabalho sobre isso né? Sua amiga disse que sim. Ele tem autismo! Você que vai atende-lo. Sim, claro. Vou assistir a aula e quando começar o atendimento eu procuro o prontuário dele, tá certo?! Dou um sorriso e sigo.
Quando a aula acaba e eu chego na sala eles estão me esperando. Ele anda de um lado pro outro da salinha. É um menino franzino, com novos dentes de vários tamanhos, de olhar curioso, cabelo de curumim. Abre e fecha todas as portas do armário, a torneira, já me abraça e ri, tudo é motivo para ele encostar em mim de alguma forma. Ele pega meu esteto, antes que eu coloque o jaleco e tenta ouvir sua barriga. Pergunta se tem bebê ali. E eu deixo ele ouvir a minha e depois a da mãe dele. Ele anda sexualizado e agressivo com outras crianças, diz a mãe. Mas ele nunca foi assim. Há 2 meses ele diz que não quer mais ir a escola. Que lá tem muitos fantasmas.
Durante a consulta, em algum momento, ele geme simulando uma relação sexual. Ele tem 6 anos. Temos que esperar a professora chegar, querido. Mas ele fica agressivo. Irritado. Puxa a mãe para ir embora. Com a chegada da médica, finalizamos a consulta e ele vai. Então me contam da história. Os meninos do bairro quando chegam a certa idade são expostos a pornografia. Para virarem “homem”. Macho. Eles colocam vários meninos ali juntos assistindo. Ficam embaixo do cobertor. Me diz a professora que fez o atendimento comigo. Há algo em mim de surpresa, de nojo, de raiva. Não é a primeira vez que ouço essa história. Ela existe e já aconteceu comigo quando eu era criança e vi um fantasma pela primeira vez.
Eu volto pro carro. Volto pra casa. Não tem mais cheiro de esgoto com barata e ratos, mas tem. Não tem mais um amontoado de casas pobres, mas tem também.
Existem muitos fantasmas, meu amor. Como dizer pra você que tem o céu, o mar, a lua que vai mudando de fase e que ela é uma maestra das águas, que há um lindo sol e que ele alimenta cada célula do nosso corpo de luz divina, que há lindo caminho de floresta onde uma mora uma velha sábia sempre pronta a acalentar? Nós somos um, sabia? E sabia que tudo isso cabe dentro do seu coração? Como seguir leve sabendo que o machismo mata e fere mais que só corpos, mas que rouba das pessoas essa capacidade de receber o amor?
Só por hoje, reflita sobre o nosso machismo de cada dia. Que não se banalize a importância de acabar com ele de uma vez por todas. Ele e todos os vieses que o acompanham.

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