Manhã de sexta

por Rodrigo Lima

Quinoterapia 07

© Quinoterapia – Quino

 

Clara chegou numa manhã de sexta. Trazia um papel em suas mãos, que aparentava ser o resultado de algum exame. “Putz, não revisei o prontuário antes da paciente entrar!”, pensei comigo, um erro (pelo menos pra mim) comum numa manhã de sexta. Pós-plantão, querendo fechar a semana, enfim. Enquanto ela se acomoda eu olho o prontuário rapidamente e vejo que não havia registro de consulta recente. Menos mal. Quer dizer, não necessariamente. Quem pediu aquele exame? Por que? O ciúme de um médico de família é uma coisa esquisita. Você fica se perguntando porque não vieram falar com você pra qualquer coisa.

“Oi Clara, tudo bom?” – começo a consulta. É manhã de sexta. Tô cansado. Vou tentar agilizar. “Qual o motivo de ter vindo hoje?”, pergunto de forma despretensiosa, e ela imediatamente ergue o papel que trazia nas mãos. “Vim trazer este exame”, disse, laconicamente.

Abro a folha de papel após mais uma vez furar os dedos naqueles malditos grampos. Preciso comprar uma porcaria de um extrator de grampos. Que ódio de grampos. Nas minhas mãos, o resultado de uma ultrassonografia de mamas. Reviso a idade de Clara, 40 e poucos anos. “Clara, por que você fez este exame? Algo te preocupa? Aqui não tem nada, o exame é normal”, adianto, para tranquilizá-la e ao mesmo tempo mostrar interesse. “Não”, ela diz. Conta que fez o exame por rotina. Queria fazer, pediu a uma médica a solicitação, ela deu, pronto. Insisto. “Sente algo nas mamas?”, e ela segue curta. “Não”.

“Ok, é manhã de sexta”, penso comigo, “adoro consulta curta nas manhãs de sexta”. Me permito mais uma pergunta. “Clara, tem mais alguma coisa que você queria discutir hoje? Algo mais te preocupa?”, e desta vez ela nem usa a voz, apenas balança a cabeça indicando que não, como que diz “pare de perguntar, ora”. O problema é que esse é o cenário típico onde um “não” quase nunca quer dizer não. Volto ao prontuário, anoto o resultado do exame. Clara comenta, timidamente: “eu estava muito ansiosa com esse exame”. Bingo. Tem algo aí. “O exame está normal, então em relação a ele podemos ficar tranquilos. Mas normalmente quando a gente fica ansioso as causas são várias, né?”. Ela sorri. E apenas isso. Volto ao prontuário, é manhã de sexta mas preciso esperar.

“Doutor”, ela me chama, “é normal a gente ficar assim, menos interessada nas coisas quando entra na menopausa?”. Opa. “Menos interessada como, Clara? Nas coisas em geral? Ou você se refere a algo específico?”. Ela entendeu que eu entendi. Respira fundo. Silêncio. Mas a porta já foi aberta pra mim. “Algumas mulheres, quando entram na menopausa, perdem um pouco da vontade de ter relações”. Ela olha meio incrédula. Tem hora que eu acho que os pacientes nos vêem como bruxos. E diante de bruxos, não adianta esconder nada. Os bruxos sabem. Então a coragem pra falar vem logo.

E começa a história. Clara mora na favela. Está pra se mudar para outra cidade, no interior, onde terá uma casa espaçosa. E vai se mudar porque odeia morar na favela, porque diz não ter privacidade, os vizinhos ouvem tudo, a casa vive empoeirada, de vez em quando fica violenta. Não digo nada, só ouço. É manhã de sexta, mas o cansaço passou. De repente, o diagnóstico que ela mesmo fez: “Acho que eu tô é ansiosa com essa mudança, essa coisa toda. E sabe porque eu não gosto de ter relações, doutor? Porque acho que todo mundo na favela ouve. Aí eu não posso fazer barulho. E eu gosto do meu marido. Aí a gente faz barulho. Sabe de uma coisa? Será que quando eu me mudar essa ansiedade vai passar?”.

Olho e sorrio. Ela mesmo resolveu tudo. Digo que é possível que sim, e que a gente pode ir conversando nos próximos dias. Pergunto quando ela vai se mudar, e ela diz que em 10 dias viaja. “E como eu vou vir aqui conversar se vou morar em outro lugar?”, ela pergunta. Respondo que se ela quiser vir, pode vir. Mas que pode conversar com alguém por lá se quiser. O principal ela já fez. Ela sorri. De novo, acho que pensa que sou um bruxo. Levanta, se despede, sai da sala. Fiquei sentado. É manhã de sexta. O bruxo tá cansado, mas tem mais gente pra chamar.

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