Das más notícias

por Ana Paula Marcolino

– Ana, olhe a tomografia…

Era uma lesão extensa em pulmão esquerdo. Três costelas afetadas.

Continuou: não sei como dizer a ele! – Estava claramente triste, pois gostava muito desse paciente… A residente era empática por si só… mas havia um algo mais naquele senhor que nos levava a refletir sobre os motivos de uma família tão amável… e por que ele sentia dor sem se queixar, tão encolhido? Por que com ele? Por que uma doença tão ruim e tão silenciosa?

– Ana, vem junto comigo? Não vou conseguir dizer sozinha… por favor…

Fomos nós. Caminhando lado a lado. Silêncio. Paramos. Respiramos. Olhamos uma pra outra. Eu tinha a tarefa de ajuda-la, então tomei a coragem de entrar logo!

– Oi, Seu L., boa tarde! Eu sou a Ana Paula, professora da Dra. Sara, médica do Senhor. Não sei se lembra de mim.

– Lembro sim, Dra. Eu nunca esqueço quem ajuda a gente! A senhora atendeu minha esposa uma vez, quando ela estava passando mal.

Nossa… poucos lembravam de mim, pois o comum ao preceptor daquela equipe eram atendimentos específicos, focados em queixas rápidas. Mas aquele homem era grato por um atendimento do resfriado da esposa. Meu peito se aperta…

Residente segue – Seu L., minha professora veio junto porque vimos que o seu exame deu alterado mesmo.

– Isso, seu L. Eu percebi que o senhor e sua esposa já tinham lido os escritos aqui do laudo. O que o senhor entendeu?

– Dra, eu entendi que eu tenho uma doença muito ruim e séria.

– E o nome dela? O senhor sabe?

– Eu acho que é câncer, né? Minha filha tem mais estudo e procurou no computador esses nomes estranhos.

– É, seu L… é câncer sim… Como o senhor se sente?

– Uai, Dra… eu tô bem! Um pouco de dor aqui nas costelas e na pá…

– Eu sei, Sr. L… é porque a doença está muito espalhada. E isso é bem ruim. Estamos bem preocupadas com o sr – Direcionamos à esposa – como a senhora está?

– Vamos encaminhar pra o tratamento né Dra.? Tem tratamento lá?

Conflitos interiores imensos tomaram conta de mim. Eu sabia exatamente como seria: inúmeros tratamentos e intervenções desnecessárias. Ele ficaria adoecido, mexido, revirado e teria uma sobrevida de dores. Ele que parecia tão em paz…Como fazer aquilo tudo? Se eu não encaminhasse, seria como não oferecer o tratamento que ele “tinha direito”. Se encaminhasse, o privaria da boa morte. Mas não tínhamos, em nosso contexto, materiais pra dar-lhe uma boa morte!

– Olha, vamos encaminhar sim.. Mas preciso contar uma coisa a vocês: a doença está muito grande. A chance de curar é pequena. Eu digo isso com tanta dor, gente. Nós gostamos muito da família de vocês – já marejava os olhos, sou molenga mesmo – e tem uma chance de fazerem um monte de exames, internações e tratamento que deixariam o sr fraquinho, acabando por talvez piorar a saúde, ao invés de deixa-lo partir com menos dor. O que posso fazer agora é dar um remédio bem forte pra dor e continuamos nos vendo todos os dias que precisarem até definirmos mais coisas. Nós somos suas médicas. E o sr. é o dono do seu corpo e da sua vida. O que o senhor decidir, estamos aqui pra ajudar. Entendeu?

– Entendi tudo, dra. O que as senhoras fizerem, vou achar bom.

Fizemos o encaminhamento, prescrevemos medicamento pra dor forte e nos despedimos com abraços. Depois de eles saírem, olhamos uma pra outra após a consulta. Eu e a residente lacrimejamos os olhos… Como dar a boa morte a ele?

Encontros esporádicos seguiram. Ele veio com todo o estadiamento… cintilo óssea. .. metástase em vários ossos, além de supra renais e pulmão direito também… a quimioterapia paliativa e o consumiu bastante.

Eis que dois meses depois da primeira consulta, vem seu L. com todos os exames e sua filha mais velha. Ela estava bem sisuda. Não falava muito. Eu tive de atendê-los sozinha. Residente atribulada. Filha com raiva porque o pai decidiu não se tratar mais no hospital. Dizia que Deus iria curá-lo. Dizia que éramos as dras dele e escolheu ficar tratando só conosco, sem ir pro hospital de novo. Ela sentou-se longe de nós dois na consulta. Ficou chateada porque conversamos abertamente sobre o “câncer” na consulta e o médico especialista focal achava que o sr L. “não tinha de saber o que o velhinho tinha, pois prejudicava o tratamento”. Isso é prática bem comum na minha região (que absurdo!).

– Sr L., como está a vida pro Sr?

– Dra, eu sei que essa doença está me tirando a vida.

– Entendi… isso quer dizer o que?

A filha chora muito nesse momento… Eu marejo… Ele mareja…

Silêncio…

– Eu creio é que Jesus vai me curar, sabe, Dra?

– Sr L… O sr se lembra o que Jesus orou no monte quando ele chorou? O sr. se lembra o clamor dele a Deus?

– Sei sim – chorou compulsivamente…. choramos….- Ele pediu … que se fosse da vontade de Deus, que afastasse dele o cálice… mas que fosse feita a vontade de Deus…. Dra..a senhora é crente?

– Sou cristã…

– A senhora se importa de orar comigo?

Eu jamais tinha ouvido um pedido daqueles! E agora? Isso não está em livro nenhum! O que faço? Como agir? Decidi orar. Um tanto constrangida, preciso confessar.

Ele estendeu as mãos… chamou a filha… e juntos oramos….choramos…

– Dra..eu sei que estou morrendo devagar.. mas eu vou morrer bem… a senhora pode me passar aquele remédio pra dor novamente?

Por questões acima de nossa capacidade de decisão, não pude continuar na comunidade à qual me vinculei por quase três anos. Não sei como e se o sr L. morreu. Não sei como nem se eu poderia ajudá-lo a ter uma boa morte! Eu sei que aquele senhor tão cheio de paz parecia a pessoa mais pronta pra morte que já encontrei. Porém ele me confrontou: fez-se expressar minha fé numa relação médico-pessoa num nível que não sei até hoje se podia ou não chegar. O conflito é meu. Não dele.

9 comentários sobre “Das más notícias

  1. Ana, que texto lindo!
    Marejei os olhos aqui com vocês, já passei por uma situação dessas na emergência em que trabalhava e acredito que você tenha ajudado. E muito!!
    Muito obrigada por compartilhar esse belo relato!
    Abraços

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  2. Quanta sensibilidade! Absolutamente centrado na pessoa. Creio que estamos todos na mais bela especialidade. E todos os dias voltamos a escolhe -la. Relatos assim fazem a gente continuar na luta.

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  3. Ana Paula,Deus te abençoe,
    Chorei copiosamente com seu relato tão sensível.
    Parabéns pela sua postura profissional!
    Parabéns pela sua postura de Cristã!
    Parabéns pelo seu tocante texto!
    Sucessos em todas as áreas de sua vida.
    Beijos,tia Luiza

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  4. Ana Paula, minha sobrinha querida, a qual sempre chamo de minha filha, que experiência profunda! !! Também marejei , lendo pra sua mainha que marejou junto. A sensatez que vc teve foi fundamental, Dra. Parabéns! !!!

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