Uma mãozinha no freio de mão

por Fátima Vanderley

Foi hoje pela manhã no consultório. Quando a porta abriu ele estava entrando na marra, sendo empurrado pela mãe, chorando muito. Eu direcionei o olhar para ele e perguntei: “por que tu estás chorando?”. A mãe o empurrava consultório adentro e dizia: “você não tem que querer não!”. E ele continuava chorando, pisando no freio para não entrar e a mãe repetindo a mesma frase. Enquanto eu perguntava novamente a razão do choro, abri o prontuário no computador. Por alguma razão, a minha atenção que por um segundo se desviou daquela cena também desviou a dele para o computador, e de repente, um silêncio…

Em poucos segundos eu senti a presença de uma pessoinha bem próxima de mim, quase entre as minhas pernas fazendo um pequeno esboço de tentativa para subir no meu colo. Resolvi enlaçá-lo com o braço esquerdo e digitar com a mão direita, mesmo sendo sinistra, já que não me restava outra alternativa. Não podia levantar o freio de mão que ele havia soltado. Não ia perder a chance de me aproximar desta criaturinha por nada neste mundo, pensei.

Abri o prontuário e no canto inferior esquerdo da tela ele visualizou o iniciador do computador. Bem se via que era um pequeno entendedor da coisa (pertencente à geração Y). Disse-me que queria desenhar (ou pintar, não lembro), já pegando o mouse com a mãozinha direita por cima da minha e tentando comandá-lo. A essa altura ele já estava sentado no meu colo. Enquanto ele insistia em desenhar (ou pintar) barganhei o preenchimento do prontuário juntos. Perguntei o peso dele. A mãe respondeu: “16 quilos”. Mostrei a ele onde estava o número 1 e pedi para ele clicar e depois o número 6. Colocamos o peso. Enquanto ele me mostrava, insistentemente, a letra K no teclado (Kaio era o seu nome) eu também tentava, com uma mão só, digitar bem resumidamente a queixa, o exame físico e a conduta. É claro que em quase todas as palavras foram umas letras K no meio, digitadas por Kaio. Ficou engraçado! Eu só escutava a mãe dizer: “É muita paciência!”. Outras palavras também foram enviadas com o numeral 3 entremeado (3 anos era a idade dele).

Rapidamente fechei o prontuário e negociei a receita, já que Kaio também queria a minha caneta para escrever o nome dele no meu bloco de receituário.

Primeiro fiz a prescrição dele com direito a duas carimbadas, uma em cada dorso da mão. Depois emprestei a minha caneta para ele escrever o nome dele em uma folha de receituário. Mostrei o local e ele rabiscou uma coisa bem minúscula, ilegível, dizendo que era o nome dele. Elogiei, disse que estava lindo! Em seguida ele fez uma pequena estrela, agora mais parecida com o objetivo. Fiz um novo elogio. Destaquei a folha, entreguei a ele e pedi a caneta de volta. Kaio me devolveu perguntando para que o queria. Respondi: “Vou passar remédio para outro menininho que está lá fora e que vai entrar daqui a pouco”.

Kaio se despediu dando tchau e soltando beijo. Deixou, esquecidas no consultório, as lágrimas e a folha rabiscada. Mas havíamos construído um verdadeiro vínculo médico-paciente.

9 comentários sobre “Uma mãozinha no freio de mão

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