Bruxo

gandalf e galadriel

por Antônio Modesto

 

Ele parecia um Hell’s Angel que engordou, se aposentou e trocou a moto por uma picape; ela, uma ex-hippie, tanto pelo figurino quanto pelo fogo de outrora, hoje domado pela experiência, mas que ainda escapava pelos atentos olhos azuis. Do meu lado, o residente de vinte e poucos anos. Ele tinha vindo para reavaliação depois de ter iniciado insulina e tido diagnóstico de hepatite C – nunca saberemos se pelas transfusões antigas ou as agulhas compartilhadas nos anos 70. Hoje era apicultor e, na equipe, tinha o apelido de Bruxo. Na consulta, é o Bruxo quem quer respostas: “o que eu posso fazer pra não piorar?”.

“O mais importante a fazer é não ingerir bebida alcoólica, até porque não sabemos se há lesão hepática, precisamos do laboratório e do ultrassom. Qualquer quantidade de bebida pode piorar uma eventual lesão”.

“Nem o xarope que eu preparo?”, pergunta, me contando a receita de um combinado de ervas diluídas em álcool.

“Se puder diluir em outra coisa, melhor”, respondo, tentando esconder que não tinha certeza se quantidade irrisória de álcool seria danosa.

“Não, doutor, eu passo no álcool e depois diluo em água, fica essa quantidade”, diz, gesticulando.

“Ah, então sobra muito pouco…” (minha dúvida era tanta que não lembro a que conclusão chegamos). “Quanto ao diabete, já conversamos sobre a alimentação, se o senhor puder começar alguma atividade física e perder peso, vai controlar melhor e, de repente, dá pra tirar a insulina e ficar tomando remédio pela boca”, oriento, tentando não lançar para a mulher aquele olhar de “prestou atenção?”.

“Que bom, doutor. Então vou poder continuar fumando meu cigarrinho…”, diz, rindo.

O residente se mexe na cadeira, acho que murmura um “não”.

“Bom, não é uma boa, porque o cigarro faz mal pras artérias”, e bla, bla, bla, “você não deveria fumar”.

“Não, doutor, não é esse cigarro, não…”

Quando volto a esse momento não consigo lembrar se não entendi, não acreditei ou não queria perder essa.  “Qual é, então?”.

“É…”, hesita, contando moedas invisíveis com polegares e indicadores,  “cannabis…”

“Cannabis…”, repito, ganhando segundos preciosos. “Fuma todo dia?”

“Todo dia, doutor…”

Não perguntei há quanto tempo, não precisava. Aliás, acho o apelido da equipe muito adequado: mais que um Hell’s Angel aposentado, ele parecia um Gandalf fora de forma.

“Eu acordo, aperto uns três, aí vou fumando durante o dia…”

“Três por dia…”, repito, não dou conta de tanta novidade. A mulher, então, toma a frente.

“Não, doutor, é assim: todo dia ele acorda, aperta um maço de baseados, fuma um, toma café, pega o carro e vai pra Miguel Pereira, cuidar lá da abelhas dele…”

“VOCÊ DIRIGE FUMADO ATÉ MIGUEL PEREIRA?”

“Dirijo” – e ri, o Gandalf das abelhas.

“Eu nunca conseguiria… Não é perigoso, teus reflexos não diminuem?”.

“Doutor, eu faço isso há vinte anos, nunca bati o carro”.

“Caramba…”

“É verdade, doutor”, diz a mulher, “ele é o melhor motorista que eu conheço”.

“Minha mulher já me disse isso”, penso, “é uma baita declaração de amor”.

“Uau…”, murmuro. “Mas e aí, cê compra?”

“Compro. Eu já plantei, doutor, mas hoje eu compro”.

“É difícil plantar, né?”.

“Né não, doutor… Com a luz certa, vai fácil!”.

“Prensado?”

“Prensado”.

“Bem… Claro que não faz tão mal quanto cigarro, que tem um monte de porcaria junto, que o risco de câncer e outras doenças é muito alto, e tal, mas não sei até que ponto essa quantidade de fumaça inalada não pode fazer mal aos teus pulmões – um enfisema, por exemplo. Até porque eu soube que no prensado eles colocam amônia, um monte de coisa…”.

“É, botam mesmo”.

“Então eu pensaria em diminuir essa quantidade. Outra coisa que tá muito claro é que pessoas que fumam muito tempo podem ter prejuízos importantes na memória, até permanentes”.

“Ih, doutor, isso aí eu já tenho”, e ri, o Gandalf da cannabis.

“Bom, podemos avaliar isso direito num próximo encontro, posso testar tua memória, mas não notei nada muito esquisito até agora. Meu medo é você ficar velho e lesadão, sabe? Tipo, que não lembra nada, não entende direito o que tá acontecendo, e tal… Imagino que você não queira isso”.

“Não, doutor”.

“Então acho que você podia pensar em diminuir um pouco essa quantidade, aí”.

“Pode deixar, doutor”, diz, sem convencer a ninguém na sala.

Tudo bem, já foi muito por hoje. Receitas, apertos de mão, marcação de retorno, e saem Gandalf e Galadriel a criar abelhas e fazer poções, deixando um feiticeiro e seu aprendiz a pensar na vida.

* * *

Enviei uma primeira versão desse texto ao residente, que me respondeu por email: “Estive com o próprio (Rúbeo Hagrid/Gandalf/Bruxo) hoje!  Já começou a mudar os hábitos. Mudança na dieta, é claro… A cannabis fica!”.

“Que bom que gostou”, penso. “Tenho que lembrar de discutir a relação entre cannabis e hiperfagia no retorno”.

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3 comentários sobre “Bruxo

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