Falando de nada

por Carolina Reigada

Era uma manhã de Visita Domiciliar, carinhosamente apelidada de “VD”. Estou pegando o casaco e o guarda-chuva, pensando que os sapatos estarão cheios de barro no fim da manhã.

Escuto uma pequena comoção na entrada da clínica. Parece que sairemos atrasados para a VD.

“Doutora, tem uma paciente nossa. É que o irmão dela morreu ontem à noite. Ela disse que está passando mal…”

“Claro, vamos lá”

Encontro uma mulher sentada na cadeira, dentro do consultório. Nunca a consultei antes, mas percebi que passou parte da noite bebendo e chorando. A amiga fica por perto, mas com um braço cruzado, mantendo alguma distância.

“Oi, meu nome é Carolina. Como eu posso ajudar?”

Falo baixo, respeitando o luto que ela carrega. Ao mesmo tempo, me sinto boba. O irmão morreu e essa coisa de morte parece muito, mas muito maior do que eu.

A resposta vem em um suspiro fundo. Depois tenta falar. Desiste, balança a cabeça. Pega o ar, se prepara para falar. Mostra as palmas das mãos. Fecha as mãos e as apóia na mesa. Encarando a mesa, relata:

“Ele morreu. Eu rezei muito, eu tentei muito, mas ele morreu. Ele foi embora. Eu criei ele. Ele morreu. Ele não existe mais”.

É, taí. Sempre que ela chega, eu penso: a morte é, simplesmente, grande demais. Acho muito difícil encarar a morte. Por isso, sempre que eu conforto os pacientes em luto, me sinto hipócrita. Mas ainda acredito que, entre eu e o paciente, devo ser eu a pessoa a desistir por último. Então, vamos:

“Quer falar mais sobre seu irmão?”

“Ele tinha câncer, ele tinha dor. Eu cuidei dele, cuidei dos filhos dele. Meu marido está com os filhos dele, agora, por isso não veio. Eu queria ficar com ele pra mim, sabe? Eu não acredito que ele não existe mais!”

“Perder alguém tão querido é muito difícil, mas ele ainda existe. Existe nos filhos dele, existe quando você fecha os olhos e lembra dele e agora existe pra mim, que não conhecia ele, e sei que ele existe, através de você.”

Não me julguem. Eu sei que parece um argumento fraco, mas o que não parece fraco diante da morte? Além disso, minhas lembranças fortes são muito palpáveis, e vejo sentido em entender que a pessoa que vive dentro de nós não morre enquanto nos lembramos dela.

Bom, alguma coisa dá certo, os olhos saem do tampo da mesa e viram-se para mim.

“Eu consigo vê-lo direitinho, na minha cabeça. O tempo todo. O que me deixa feliz é que os filhos dele ainda estão aqui, comigo. E minha neta…já vai nascer. Eu acho que o que mais machuca é que ele não aceitou morrer. Ele morreu e não aceitou morrer.”

Pela quarta ou quinta vez na vida, reforço minha anotação mental: melhor aceitar morrer enquanto estiver viva. Facilita muito a aceitação para quem fica. Minha mente ameaça devanear para os meus próprios medos de morrer. Minha paciente me chama de volta:

“Eu também vim aqui porque minha mão está formigando, a palma da mão. Formiga até o cotovelo, e às vezes até o ombro. Aí pára.”

Opa! Calma, biomedicina. Corpo-máquina, será que o coração vai falhar? Ligo os alertas. Revejo as informações: mulher, 40 anos, sem morbidades ou outros fatores de risco cardiovasculares. Preciso de mais dados:

“E além do formigamento? Falta de ar, alguma dor?”

“Não, dor não.”

“Esse formigamento, só vai até o ombro? E no peito, não sente nada?”

Nada. Mas que palavra eu fui escolher! Aquela mão que estava formigando tomou a minha mão e apertou, agora sim os olhos olharam e a boca repetiu “Nada. No peito, nada.” E aí as lágrimas caíram.

É, no peito não ficou nada. Entendi o recado.

Conversamos mais alguns minutos, agora mais à vontade uma com a outra. Concordamos em um plano para o dia de hoje, perguntei se queria voltar outro dia e deixei a equipe disponível a ela. Fiquei pensando na fatídica palavra que eu escolhi. Tentei encher o “nada” com algumas das coisas que ela preza: os filhos, os sobrinhos, qualquer coisa! Me deixa corrigir essa gafe!

“Eu vou ficar bem, doutora. Minha neta vai vir, tenho as crianças. As coisas se ajeitam. Obrigada.”

E ela foi para casa. Me deixou pensando em coisas se moldando aos nossos espaços vazios. Que coisas moldamos aos nossos espaços vazios? Ou os vazios que moldam as coisas?

Levantei e, finalmente, fui para a VD, pensando no meu nada.

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