Através do espelho

por Verônica Cisneiros

Era uma dessas manhãs em que a gente se veste de coragem, calça os sapatos capazes de enfrentar os esgotos a céu aberto das ruas molhadas, e o chapéu para tentar diminuir os efeitos do sol nordestino. Durante o caminho as reflexões são muitas, pois era uma região entregue à população por permuta de uma área ocupada, e na “pressa” as casas não obedeciam quaisquer normas sanitárias para habitações minimamente saudáveis.

Caminhávamos pensando até que ponto aquele desalinho, odores e tantas faltas, até mesmo de cores se refletiam no ânimo e na autoimagem das pessoas que ali viviam. Pensávamos em como seríamos nós, se o acaso fizesse dali nossa morada. A cada passo vinha uma reflexão, e a cada outro um respeito nascido da superação de cada um daqueles moradores.

Assim chegamos a residência da Sra. Marinete, parte do muro fora derrubado e não havia portão. A família, como costumam dizer, trabalhava com reciclagem, eram catadores. Ao adentrar o caminho estreito que chegava à porta da casa dificilmente conseguíamos delimitar onde terminava o material amontoado a ser reciclado e onde começava a casa, afinal casa e terreno exibiam uma só paisagem, de garrafas, papéis, latas, restos alimentares e ratos que transitavam por toda parte.

Entramos. E a um sonoro “boa tarde D. Marinete! Somos da sua equipe de saúde, e sou sua médica, recém chegada no Posto”! Escutamos “que bom doutora, há tempos venho esperando um médico por aqui. Desculpa a casa, é que vivo de reciclagem. Como tive esse derrame, e as crianças fazem pouco, a situação tem estado muito ruim. ” Assim seguiu a conversa, sobre um passado de dor, traição, limitações e a pouca ajuda de alguns poucos vizinhos.

Era uma mulher de 43 anos, sem companheiro, hipertensa desde sua última gestação, e que havia sofrido um AVC há 3 anos. Lamentava-se da dificuldade com seu corpo, com sua fala e havia perdido a esperança de receber qualquer auxílio que lhe mitigasse o sofrimento. Durante nossa conversa, naquele calor insuportável, vez em quando um rato passava como se fosse um animal de estimação.

Pouco a pouco as crianças, filhos e filhas de D. Marinete se aproximavam na tentativa de compreender o que se passava. A aparência das crianças se confundia com tudo que ali havia. A mãe se desculpava pelo descuido com as crianças, e naquela desculpa residia uma esperança. Ser médico de família e comunidade nos coloca em situações, que mesmo imaginadas, nos parecem inusitadas.

Olhávamos à volta, e não havia sequer uma parte da casa ou das pessoas que pudessem ser utilizadas como referência para despertar o desejo de mudar. Foi então que vimos um espelho, tinha cerca de um metro de altura, e estava quebrado de cima abaixo. Certamente descartado por alguma família abastada. Pedimos, que cada criança fosse a frente do espelho e descrevesse o que via. Elas diziam seu nome, sua idade, e induzíamos a que falassem alguns traços característicos, como cor do cabelo, dos olhos… Vez em quando elogiávamos a beleza que se escondia através do espelho…

As crianças passaram a ir uma e outra repetindo a “brincadeira”. Ao final da consulta de D. Marinete, sugerimos as crianças que na próxima consulta usaríamos o espelho para brincarmos sobre o que havia mudado em cada uma a partir de hoje.

Qual não foi a nossa surpresa, quando na próxima consulta não havia mais o espelho. Esta visão foi um choque e um grande aprendizado para nós. Lições sobre a dor de enxergar além do espelho. Lições de como sugerir mudanças, de como ensinar sobre os meios de consegui-la, de como compreender o que existe em torno do espelho, e de como quebrar uma determinação social imposta.

A equipe se empenhou em coordenar instituições e rede social que as envolvia. O benefício social foi conseguido e algumas mudanças aconteceram sob orientação da equipe. Aos poucos era possível delimitar casa, terreno e material de reciclagem. Haviam pentes, escovas de dente e crianças que tomavam banho para ir escola. Foram cerca de 4 anos de trabalho com esta família, com esta comunidade, com estas pessoas.

E o que aos poucos o velho espelho quebrado responde, ao ser silenciosamente indagado, é que não “existe no mundo ninguém mais belo” que alguém que descobre a força de mudança que há em si mesmo.

A medicina de família e comunidade é um caminho! Um caminho que nos ajuda a enxergar através dos espelhos!

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3 comentários sobre “Através do espelho

  1. A forma poética como foi descrito tamanha mistura de sentimentos, nos leva a refletir sobre nossa superficialidade.
    Parabéns a vc que viveu e soube transmitir tanta emoção no seu trabalho tão duro!

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