crédito cardíaco

por Alfredo de Oliveira Neto

nunca fui tão debitado pela sua paixão

sua ganância de me querer à vista

essa generosidade de não cobrar

juros de beijo meu

sempre me fez economizar afetos

 

num planejamento concreto

do que vai ser a longo prazo

me penalizo do risco

de sempre investir no acaso

não sei se no fundo dos meus investimentos

a bolsa que eu trago se descostura

e deixa cair a crise

sobre a qual assinamos concordata

 

sinto uma palpitação chata

que taquicardiza essa figura

chamada meu coração

rogo para que o déficit coronariano cicatrize

e no superávit da minha ilusão

você volte para os braços da usura

e que o nosso produto interno seja bruto

uma tremenda exportação de prazeres

e tudo que for importado seja sem tributo

o vinho, o queijo, o pão

 

e este ar que me falta?

essa inflação de O2, de nós dois

essa economia de dizeres que me ama?

 

tudo isso piora a pressão

dos meus investidores arteriais

não serão os meus ais

que penalizarão o nosso ato

mas se o meu débito for perdoado

um largo crédito cardíaco

será dilatado sem juros

cá dentro do peito

e tudo que me é de direito

será socializado

e o nosso amor será considerado

estado

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