A Trama e o Desenlace

por Fabricio Mattei

Reviso o prontuário. Idade: trinta e dois anos. Na sala de espera, apenas uma mulher aparentando no mínimo cinquenta. Indeciso, chamo pelo nome. Ela própria, não há engano. Mal senta, as lágrimas já iniciam, desde o princípio acompanhadas de pedidos de desculpa. “Por aqui ninguém me escuta. Dizem que sou louca.”
Sua história é dolorosa, porém tristemente familiar: pais biológicos que nunca conheceu, pais adotivos negligentes. Primeiro abuso aos doze anos. Foi quando começaram as vozes. Acordava no meio da noite com medo dos invasores na cozinha – que nunca estavam lá. Quatro filhos, dois maridos, diversos endereços e empregos depois, agora em minha frente, desaba: há duas semanas a filha de quatorze anos acusou o padrasto de tentar violentá-la e fugiu para a casa do pai. A mãe, contudo, decidiu ficar com o marido “até sair o resultado do exame”. Os vizinhos a acusam de conivente, e proibiram seu trabalho na cooperativa de reciclagem. “Imagina, doutor: nunca deixou faltar nada. Mas se for positivo, vou embora na mesma hora.” As vozes progressivamente se tornaram insuportáveis, a ponto de buscar ajuda.

Situações semelhantes se sucedem, às vezes ao longo de um mesmo dia. Presenciar dois homicídios e uma invasão policial na própria casa. O filho morto em disputa entre facções. O marido preso na semana do parto da primeira filha. Pessoas que experienciam em um mês mais estressores que os presentes em toda uma existência. Na periferia de Porto Alegre (como de todo o país) a reação de luta ou fuga é o estado natural. De que ferramentas disponho para enfrentar as marcas deste processo, além da intervenção química – com suas limitações?

Sou homem, branco, de classe média alta. Podem fracassar todos os meus projetos de vida, e ainda assim estarei a quilômetros de distância dessa realidade. Dizer que é possível alcançar uma empatia autêntica talvez seja hipocrisia. O resultado final, muitas vezes, é somente pena. Tristeza. Impotência. Se esforçar para isso, todavia, pode ser um passo para oferecer alívio à pessoa que procura ajuda – é o que tento convencer a mim mesmo. Se não há possibilidade de êxito, o processo em si ganha maior relevância. A interação de uma consulta vira um fim em si mesma. Um enorme caminho; um destino minúsculo. Me recordo de uma canção de Jorge Drexler: “Ir y venir, seguir y guiar, dar y tener, entrar y salir de fase. Amar la trama mas que el desenlace.”

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5 comentários sobre “A Trama e o Desenlace

  1. Muito linda a crônica! Nos relembra que nossa realidade é uma utopia para muitos. … triste ver frases de ” ninguém me ouve aqui” ainda tão frequentes no serviço público! Que teu olhar continue atento e teus ouvidos dispostos a ouvir a dor tão singular dessas pessoas que precisam compartilhar esses momentos tão difíceis. Força na luta por um mundo mais consciente do valor do ser
    humano! Um abraço.

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