A) Falta de Amor Crônica

por José Carlos Arrojo Júnior

 Primeira consulta. Entrou no consultório ressabiada, não sabia o que ou quem ia encontrar, se seria olhada, se seria “desescutada”. Com claros sinais de defesa, sentou na cadeira do lado com uma pilha de exames de aproximadamente 15cm de altura. Jogou na mesa antes de começar a falar e, depois de ouvir meu “Bom dia Dona Tereza! No que posso ajudar a Senhora?”, falou:

 – Dr., faço acompanhamento no psiquiatra, no neurologista, no ortopedista, no reumatologista, no nefrologista, no gastro, no dermatologista e ninguém consegue me falar o que tenho! Falaram de uma tal de Fibromialgia. Sinto dor em todo corpo, do cabelo até o dedo do pé desde meus 15 anos. Já tomei todos os remédios que me passaram, tenho até problema nos rins por causa disso, e continuo com essa dor! Quero um exame que veja o que tenho de uma vez por todas, porque essa vida não vale mais a pena!

Depois de falar todos os seus problemas de saúde e o sofrimento extremo, ouvidos cuidadosa e atentamente, olho no olho, decidi tocar minha mão na mão dela, “entrar na bolha” como meu preceptor uma vez me ensinou. Arrisco:

– Percebo que a Sra. sofre muito com tudo isso e que não vem de agora. Às vezes o corpo só fala aquilo que a mente ou o que a alma sente. Tem momentos em que a gente passa a sofrer o que um dia nos fizeram sofrer também. Estou certo Dona Tereza?!

Olhos lacrimejando, cabeça provavelmente a mil. Cogito a possibilidade de talvez soltar as mãos, mas decido tranquilizá-la:

– Estou aqui pra ver a Sra. por inteiro. Não precisa ter medo, porque o que a Sra. falar aqui ficará entre nós 2 e essa relação de confiança é que vai me ajudar a ajudar a Sra.

Ela solta a minha mão. Pensei ter ido longe ou rápido demais. As mãos vão ao rosto. Um choro incontrolável se inicia. Ofereço um lenço. Coloco a mão no ombro dela. Ouço o terceiro prontuário sendo colocado na minha porta, mas ignoro.

-Dr., o Sr. foi o único que me perguntou dessas coisas. Vim pensando em pegar um encaminhamento e uma guia de exame mas vou contar tudo… tudo que aconteceu nessa minha vida desgraçada. Dos 15 até os 17 anos fui estuprada pelo meu irmão Dr.. Minha mãe falava pra eu não contar pro meu pai, porque ele ia me mandar embora de casa. Eu não aguentei, contei e me mandaram embora. Vim pra São Paulo, encontrei um homem que me dava comida pra sobreviver… ele também me estuprou e disse que, se eu denunciasse ele, não daria mais comida. Arrumei uma casa de família pra trabalhar, o patrão era bom, mas a patroa me humilhava. Trabalhei por mais de 30 anos lá. 30 anos comendo o pão que o diabo amassou sem ser registrada, cheia de dores… acho até que o Sr. tá certo a minha dor é na alma. Já pensei em acabar com a minha vida várias vezes Dr., mas acho que não preciso fazer isso por mim, porque vai vir logo logo… lembro que minha avó lá em Caruaru me dizia: na vida a gente só vai embora por falta de amor.

Lágrimas também escorreram no meu rosto.

Quarto prontuário cai na caixa presa na minha porta do lado de fora.

Acalmo Dona Tereza. A deixo respirar, ofereço mais lenços e água. Os exames já tinham sido esquecidos na mesa.

Olho pro prontuário: deixo espaço para o subjetivo (S), para o objetivo (O) e na avaliação (A) escrevo com a letra meio trêmula: Falta de Amor Crônica.

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4 comentários sobre “A) Falta de Amor Crônica

  1. Acho que não foi somente a D.Tereza e o Dr que chorou.. Ouvimos estórias semelhantes todos os dias e acabo por descobrir mais um diagnóstico que vc o entitulou muito bem: Falta de amor crônico.

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  2. Alguns finais tristes podem terminar bem. Fazer isso é parte da missão do médico, que pode transformar a visão do inevitável. Parabéns pelo texto. Merece ser publicado.

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