Pernas cruzadas, ouvidos abertos

por Rodrigo Lima

I

“Ela voltou!”. Não consegui disfarçar a surpresa em ver o prontuário de Carol na minha mesa ao chegar no consultório na manhã de uma sexta-feira. Eu a havia atendido na tarde do dia anterior com história de menstruação bastante irregular, com último ciclo há mais de 2 meses. Na ocasião eu disse que antes de qualquer coisa, precisava de um teste de gravidez para saber se a principal causa de ausência da menstruação na idade dela estava presente ou não. Na consulta perguntei sobre o desejo dela de engravidar, e ela afirmou que tentava há alguns anos e não conseguia, devido a um suposto problema hormonal diagnosticado por uma médica dois anos atrás. Não falou muito, mas disse que conversaríamos mais em outro momento, quando ela me conhecesse melhor. Fiquei achando que não havia conseguido um bom vínculo, e daí a surpresa com a sua presença.

Carol me trouxe o teste de gravidez negativo, mas parecia mais leve. Era bem extrovertida, e logo disse que hoje conversaríamos mais porque havia perguntado sobre mim para outras pessoas de sua rua e havia ouvido ótimas opiniões. “Hoje eu vou me abrir mais”, disse ela, pra em seguida começar a contar mais de sua história, incluindo o início precoce da vida sexual, o casamento ainda adolescente, a frustração de não engravidar, o ganho de peso que a incomodava. No começo do relato eu cruzei ambas as pernas sobre minha cadeira, gesto que de minha parte significa estar relaxado e disponível para conversar, e que foi imediatamente percebido por ela pois no meu consultório fico exatamente de frente para os pacientes, sem mesa entre nós. Nesse momento ela interrompeu a história, deu um riso gostoso e disse “me disseram que o senhor iria fazer isso!”. “Isso o que, cruzar as pernas?”. “É”, disse Carol, “e falaram que o senhor gostava de sentar na maca às vezes, e que explicava as coisas desenhando naquele quadro ali”, apontando para um quadro branco onde costumo deixar lembretes pra mim mesmo e rabisco desenhos de um estômago, de um útero, de uma pessoa, sempre que as palavras não dão conta de passar a mensagem que preciso passar. Ela falou rindo, achando graça, e eu também achei divertido me ver pelos olhos dos meus pacientes assim.

“Olha, essa é a minha posição relaxada. Pode continuar. Depois eu rabisco algo no quadro pra você”, eu disse, já pensando que sentar na maca iria ficar pra um outro dia. Ela riu, e continuou sua história, e a consulta continuou do jeito que eu gosto, como uma boa prosa onde no final eu tenho que dar um conselho que pode ser acompanhado por alguns papéis com meu carimbo e assinatura.

II

Roberta veio na mesma manhã, queixando-se de um ardor vaginal que temia que estivesse relacionado com o DIU que havíamos inserido há algumas semanas. Já a conheço há alguns meses e temos uma boa relação, de forma que a consulta também flui da maneira que me agrada, numa conversa boa e tranquila. Ela deita-se na maca para que eu possa examiná-la, e enquanto eu preparo o material me lembro de Carol, e dou uma risada. Olho para Patrícia, estudante do quinto ano que está em estágio comigo: “Ainda tô rindo daquela paciente”, comento, e numa tentativa de colocar pra fora a vontade de rir e quebrar o gelo que sempre existe antes de um exame ginecológico, conto a Roberta o que Carol me falou sobre minha postura no consultório. Patrícia ainda traz outra história para a conversa, dizendo que lembrava de mim de uma aula que eu havia dado na faculdade no segundo ano do curso dela, e que o que mais tinha chamado a atenção havia sido o fato de eu ter sentado na mesa, de pernas cruzadas (não foi o que eu falei na aula que chamou mais atenção? Ih…). Roberta ri junto, e eu continuei falando, desta vez tentando refletir um pouco sobre o relato: “Eu preciso tomar cuidado com isso. Muita gente deve gostar de um ambiente mais descontraído, mas algumas pessoas podem se sentir desrespeitadas de alguma maneira, como se eu não respeitasse o ambiente…”. Roberta olha pra mim e diz: “Doutor, fique tranquilo. As pessoas estão gostando. Talvez alguns ainda não estejam acostumados com isso, mas o senhor conversa com a gente. É diferente”.

III

Joana chegou mais tarde, já no final da manhã. Revisei o prontuário antes de chamá-la, e pude ver que a havia atendido umas três semanas antes com uma irritação na pele. Na ocasião prescrevi medicamentos e orientei que retornasse em dois ou três dias se não melhorasse. Três semanas? Será que é o mesmo problema?

Ela entrou, e imediatamente vi a mesma lesão na pele, que parecia até pior. Após cumprimentos breves perguntei o que a trazia novamente, era a pele? O medicamento não havia produzido melhora? Joana disse que sim, que melhorou ao usar o medicamento, e que a lesão estava quase desaparecendo até alguns dias atrás, quando voltou a piorar. Notei que Joana estava com a caixa do medicamento nas mãos, provavelmente um sinal de que gostaria de outra receita. Perguntei: “Será que tem algo provocando essa piora? Você consegue perceber alguma coisa que esteja associada com o surgimento desse problema?”, e ela inicialmente, como é de hábito entre os que recebem essa pergunta, disse que não percebia nada, que não entendia o problema. Nessas horas eu costumo mudar a minha rotina de não escrever no prontuário durante a consulta, pois algumas perguntas precisam ser melhor analisadas, e alguns segundos de silêncio observando o médico escrever podem ser mágicos.

Dirijo o olhar a Joana novamente, ainda em silêncio, e sorrio discretamente, como quem diz “estou aqui”. Ela desvia o olhar mas volta rapidamente, e diz, num volume mais baixo do que o habitual: “O senhor acha que pode ter a ver com estresse?”, pergunta que está na minha lista de mais ouvidas. Respondo que pode ser, mas que o importante mesmo é o que ela acha. Será que é estresse? Tem algo estressando você? Será que posso ajudar?

Joana ri, baixa o olhar, depois me olha novamente. Respira fundo e diz “Acho que sim. Eu ando com uns problemas aí. Acho que é meu corpo avisando, né?”. “Sim, pode ser”, digo. “Quer conversar sobre isso?”.
“Não, doutor, hoje não. Outro dia a gente conversa. O senhor passa aquele mesmo remédio e qualquer coisa eu volto”. Acho a idéia bem razoável. Outro dia ela volta. Quando me conhecer melhor.

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Um comentário sobre “Pernas cruzadas, ouvidos abertos

  1. Como estudante de medicina me delicio lendo os relatos de vcs. Aqui tenho encontrado o que não vejo muito na faculdade, infelizmente… gente que gosta de gente e não só de doenças. Continuem escrevendo por favor 🙂

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