Subtexto

por Mariana Duque Figueira

– Então é isso, seu Bernardo. Nos vemos mês que vem após o senhor colher novos exames.

Abro a porta do consultório e nos despedimos: trocamos um aperto de mão, e então eu coloquei minha outra mão sobre o seu ombro por alguns instantes, como que um abraço tímido.

“Certo” foi o que me respondeu, – sempre monossilábico e desviando o olhar – enquanto se encaminhava ao posto de enfermagem para receber sua injeção de aumentar os glóbulos vermelhos no sangue.

Não me lembro de exatamente quando comecei a me despedir do seu Bernardo desta maneira. Eu me lembro de exatamente quando nos conhecemos.

Eu, residente do primeiro ano buscando na medicina de família e comunidade um caminho para cuidar de pessoas e não só de doenças. Ele, recém-aposentado buscando na bebida e no cigarro companhia para sua nova rotina.

Eu, preocupada com a responsabilidade enorme e pensando se as pessoas me levariam a sério como médica recém-formada. Ele, preocupado com a inexperiência e me perguntando se eu já tinha idade para atender gente sozinha.

Eu, pensando se havia alguma maneira menos desagradável de contar que o rim e o fígado já estavam bastante comprometidos, após anos de diabetes descompensada e de muitas doses de cachaça. Ele, dizendo que não aguentava mais cobranças de familiares e de profissionais de saúde para que parasse de beber e tomasse seus remédios todos os dias.

Ambos, apaixonados por futebol e torcedores do Santos.

Nunca gostou de ir ao médico. Nunca me respondeu com mais do que poucas palavras. Nunca me olhou nos olhos por muito tempo.

Sempre me senti fazendo monólogos nas consultas. Sempre tive dúvidas se nossos encontros faziam algum sentido para ele. Sempre me perguntei por que ele nunca faltava.

Desde então, testemunhei: a insuficiência cardíaca que apareceu com inchaço nas pernas e muita falta de ar; a ureia que começou a aumentar no sangue e o fazia vomitar; a vista ruim que precisa de tratamento com laser; o formigamento nos pés que piora à noite e às vezes não o deixa dormir.

Pensando bem, acho que comecei a me despedir do seu Bernardo daquela maneira quando ele contou sobre a dificuldade de ereção. Eu me senti um tanto culpada por ter saído feliz da consulta. Feliz porque me contar sobre um assunto tão íntimo e difícil demonstrava confiança.

Guardei silenciosamente esse dia como um pequeno troféu, símbolo do vínculo se fortalecendo. Guardei junto cada meio sorriso que ele soltava quando eu comentava sobre os jogos do nosso time.

Dia desses, encontrei Bernardo com sua esposa no corredor do posto de saúde. Fez um aceno discreto e foi tomar sua injeção para os glóbulos vermelhos. A esposa veio em minha direção com uma cara de apreensão:

– Fiquei sabendo que estão demitindo vários funcionários daqui do posto. A doutora vai embora?

– A princípio não, Dona Joana. Até agora não fui informada que serei demitida.

– Se a senhora for embora, me dê o endereço de onde for atender. É um Deus nos acuda fazer esse homem ir no médico do rim, no médico do olho. Com a senhora ele sempre vem. Ele vem até sozinho. A senhora sabe que lá na rua ele até chora quando fala da senhora. Que a senhora se importa, que se despede dele com carinho. Ele diz que é a filha que ele nunca teve.

Pegou totalmente de surpresa, esse relato de carinho explícito, escancarado. Abri um sorriso, assim meio tímido. Deu uma vontade súbita de ir até o posto de enfermagem e lhe dar um abraço forte, abraço inteiro, “de filha”.

Mas daí eu lembrei que há que se respeitar o modo como cada um demonstra sentimentos. E a nossa relação, seu Bernardo, sempre foi baseada em não ditos e quase abraços.

10 comentários sobre “Subtexto

  1. Dra. Mariana é por esses relatos que permaneço na crença que ainda há o divino no trato humano! Não tenho dúvidas que você ainda colherá muitos frutos de sua dedicação e do seu amor à profissão e às pessoas. Está no caminho certo, parabéns pela escolha dessa especialidade na medicina!

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  2. Mariana seu texto é ótimo. Uma prova da sua paixão pela saúde da família e do seu talento para a escrita. Tenho orgulho da médica que você se tornou, pela amizade que tenho com seus pais e por conhecer você desde criancinha. Parabéns.

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  3. Lindo e emocionante texto. Além de sentir toda sua competência como médica , achei incrível a sua sensibilidade em respeitar o pacto que vcs estabeleceram nessa relação. Assim dá pra acreditar que o mundo tem jeito. Parabéns!

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  4. Lindo Mari!! Me fez chorar mas de felicidade por ainda existirem no mundo pessoas Q realmente se importam com as outras e fazem a diferença!👏👏👏👏

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  5. Mariana, que texto lindo! Muita sensibilidade ,não somente na tua relação médica / paciente , mas também em conseguir colocar em palavras este sentimento tão ímpar e especial que cada paciente, e família tanto nos sensibilizam e muito nos ensinam. Parabéns ! Muito jovem , muito sensível ! Futuro brilhante garantido! Aliás tem muita Genetica envolvida. Bj! Suzana

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