Do choque

por Ana Paula Marcolino

– Use essas sandálias, e ficarás curada! – Disse o Dr. Edadilaer. Um senhor calvo, meio grisalho, com ar de sabido doutor. Falava com segurança, como se visse por dia uns cem casos iguais o meu. Rabiscava uma letra ilegível de médico (quase redundância isso), enquanto eu pensava no meu desespero, no meu sintoma.
Há 15 minutos eu contara a ele do meu sofrimento diário, iniciado há alguns meses:
– Doutor, eu dou choque nos conhecidos, parentes, nos bichos e nas coisas! Indagou o Doutor com um olhar desconfiado e pondo na voz um tom de “é claro que isso é impossível, minha cara”:
– Como assim a senhora dá choque?!
– Eu encosto em qualquer coisa e sai uma eletricidade de mim… Não aguento mais! Todos reclamam! Meu cachorro foge quando chego em casa e eu era a pessoa que ele mais gostava!
Daí por diante fez perguntas de médico. Aquelas intermináveis, quase sobrepostas. Explicou-me ser coisa simples, pra eu não me preocupar: é normal, minha cara, essa época do ano todo mundo tem energia estática e descarrega em alguma coisa. Rabiscou seu bloquinho timbrado e entregou-me a prescrição de sandálias de borracha.
Saí esperançosa em direção a uma loja para adquirir “meu tratamento”. Comprei-lhe e, já em casa, iniciei o uso. Testei no criado-mudo perto da cama: nada de choque – coitado, era o primeiro do dia a sofrer, ainda bem que era mudo! A esperança cresceu no peito e fui em direção ao meu querido cãozinho abraçá-lo.
– Etsep, vem cá, eu amigo! Vem cá! Fiu fiu fiu – assoviei. Nada dele. Fui atrás daquele pulguento. Estava bem escondido atrás da máquina de lavar, com os olhinhos assustados dizendo claramente: lá vem o próximo choque… Bem, ele estava errado! Não houve choque quando consegui alcançar-lhe e apertá-lo num gostoso abraço.
Daí em diante, minha vida parecia ter voltado ao normal. Comprei várias sandálias de borracha, de cores, modelos e adereços diferentes. Era a “mulher das sandálias diferentes”. Um preço baixo pra quem não podia tocar em ninguém!
Mas, em estando Vinícius certo até a tampa, felicidade tem fim. Não sei por que, nem como, nem onde. Os choques voltaram. E mais graves.
Fui novamente ao Dr. Edadilaer, adentrei o consultório com lágrimas nos olhos:
– Doutor, os choques voltaram… Não adiantam mais as sandálias! Agora dou choque em minha filha e meu marido, doutor – soluçava a cada duas palavras – minha filhinha querida, não quer mais tentar dar-me as mãos quando caminhamos na rua… Já dei tanto choque na pobrezinha que me perguntou se não gosto mais dela, se estou castigando-lhe!
– Acalme-se, Dona Analuf! Vamos dar um jeito nisso – e rabiscava de novo, desta vez, num bloquinho ainda menor – vá fazer esses exames e traga-me com urgência.
Voltei após 24 horas com a papelada nas mãos. Correu os olhos graves pelos números interminavelmente indecifráveis:
– Olha só, a senhora tem um distúrbio hidroeletrolítico! É isso!
– Hidro…  o quê? Melhor o senhor me explicar isso, antes de eu começar a escolher para quem vou deixar de herança minhas sandálias de borracha quando eu morrer (em breve).
– Querida (desconfio que o tom utilizado para tal palavra mostrava um profundo desejo de xingamento), tome este xarope aqui e ficará tudo bem. Digamos que as cargas positivas e negativas estão em desequilíbrio, necessitando deste acerto. Após dois dias tomando, faça o exame e me traga novamente.
Sem tanta esperança como da outra vez, fui à farmácia comprar o xarope “Cloreto de potássio”. Que estranho… já tinha ouvido falar dessa substância antes e não me trazia bons sentimentos!
Tomei o xarope como indicado. Nada… continuava intacto o maldito choque! Iniciou-se minha via crucis: gasometrias, tomografias, eletrocardiogramas, eletronãoseimaisoquê, nada, nothing, niente, aucune, nadinha de nada podia explicar ou tratar aquela energia misteriosa.
Seguindo então um conselho sábio de um ímã de geladeira de minha amiga “ao persistirem os médicos, consulte teus sintomas”, resolvi perguntar o meu choque: de onde você veio? Ele não respondia. Reformulei: Por que você veio? Nem um pio. Para onde você irá? Ixe…
Resiliência, resignação, desistência… não sei a ordem do que veio primeiro, mas foi isso. Até me esquecia do motivo pelo qual há alguns anos evitava tocar nas pessoas, nos objetos e no cachorro…
Até o dia da Grande Chuva. Houve o maior toró do mundo e, cedendo ao convite de minha filha, resolvi deixar as gotas grossas e frias se espalharem pelo meu cabelo, meu rosto, meu corpo. Tirei os sapatos, comecei a lembrar de um tempo no qual isso era natural pra mim: ficar descalça, sentir a terra, sentar no chão, olhar os pássaros encolhidinhos nos ninhos, tomar banho de chuva com meu pai nos fins de tarde de verão. Depois comer sopa que minha mãe fazia, após um longo banho morno.
Fui correndo, pulando nas poças d’água, minha filha veio atrás, fazendo o mesmo, gritando, sorrindo. E do meu peito saíram gargalhadas gostosas, gosto de doce infância, de (re)começo. Por fim, senti o corpo estranho. Melhor? Pior? Não… Diferente…
Ainda ensopada de chuva, abracei minha filha e meu marido. Depois peguei o cachorro no colo! Peguei várias colheres na gaveta, potão de sorvete no freezer e comi. Sem choque, sem choque, sem choque! Finalmente curada.
Nunca mais a mesma vida. Quando o choque quer voltar, lembro-me das sandálias, das esperanças quebradas, da solidão e tomo um banho de chuva ou um pote de sorvete ou faço “sessão gargalhadas”. Ele não deixou de existir, mas não ousa achegar-se, enquanto no coração morar a alegria doce da fria chuva.

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