Silêncio certo, silêncio errado

por Diângeli Soares

Sexta-Feira, dezoito horas. Dois pacientes para o fim do dia. Abro o envelope amarelo, prontuário pequeno, três paginas. Quarenta anos, mulher, hipertensa, Hidroclorotiazida, Losartana. Primeira consulta comigo em grupo. Última consulta há seis meses com exames (pedidos no grupo). Ponho a data no topo da pagina. Nome, idade, subjetivo, objetivo. Pronta para começar.

– Boa tarde dona fulana, como vai? Faz um tempinho né? Como posso ajudá-la hoje?

Penso em meus próximos movimentos. Silêncio. Postura empática. Olho no olho, caneta repousada sobre a mesa.

– Eu vim renovar esta receita.

Tira da bolsa o papel com a minha letra. Mais um pouco de Silêncio. Nada mais? Ok então.

– Certo, dona fulana, então a senhora veio renovar os remédios da pressão, é isso?

Balança a cabeça.

– Nós nos vimos em dezembro. Como a senhora passou de lá para cá…

Reviso o prontuário. Exames em ordem, histórico em ordem, rotinas necessárias em ordem. Pressão normal. Usando a medicação como prescrita. Que presente essa penúltima consulta, se sobrar um tempinho no final do turno coloco meu administrativo em dia.

– Bem, me parece que está tudo bem com a senhora, vamos então renovar os seus remédios. Deixamos para fazer exames novamente na próxima renovação, tudo bem?

Silêncio enquanto pego o receituário. Começo a escrever. Silêncio. Agora o silêncio incomoda. Não, o Silêncio é bom, mas agora não está certo. Há algo de errado com esse silêncio. Calculo mentalmente quanto mais da minha voz ouvi durante a consulta. Muito mais. Não, não está certo.

– Feito a receita, dona fulana.

Coloco a receita em cima da mesa, próximo a ela, mantendo minha mão sobre a folha. Ainda não acabamos. Silêncio. Postura empática. Olho no olho. Uma fração de segundos. Dou dois tapinhas em cima do papel e solto a receita.

– Além da receita, será que eu poderia ajudar em mais alguma coisa?

Silêncio. Silêncio certo, pois já se movimenta diferente.

– Eu… tenho sentido um pouco de ansiedade doutora…

Ah sim…

– Hum, certo. Explique para mim um pouco melhor como é essa ansiedade…

Preenche critérios. Sono prejudicado, tremores, irritabilidade, prejuízo da qualidade de vida… e mais alguns. Sem crises agudas. Diagnóstico diferencial.

– E tristeza?  A senhora sente tristeza?

– Sinto.

Investigo depressão.

– E a senhora vem sentido essas coisas há quanto tempo mais ou menos, dona fulana?

– Tem por base de um ano doutora…

– Entendi. Bastante tempo né? E a senhora já havia procurado ajuda de algum médico por esse motivo antes?

– Não, nunca.

– Certo, e a senhora resolveu falar disso agora né… por que agora? Eu digo, faz tempo que a senhora sente isso… por que será que só agora a senhora sentiu necessidade de falar sobre isso? Tem alguma coisa nova?

– Eu acho que anda pior, doutora. A família também está falando…

– Vem piorando… certo. E a senhora acha que tem algum motivo para isso vir piorando?

Silêncio. Silêncio certo de novo. Mareja os olhos. Voz quase inaudível.

– Sabe o que que é doutora, eu sofri um abuso…

Engole seco. Silêncio desconfortável. Me inclino para frente de modo a convidá-la a manter-se na conversa. Repito.

– A senhora sofreu um abuso…

– O meu tio doutora. Faz tempo. Mais de vinte anos. Minha tia nunca acreditou na historia que eu contei. Hoje em dia meu tio nem é mais vivo. Mas minha tia ainda mora na casa. Sempre que eu visito ela na casa volta aquela coisa toda…

Conta a historia. Chora. O marido é homem muito bom, mas nunca soube. Não entenderia. Se preocupa, pois tem achado a esposa mais calada, mais distante, recusando intimidade. Escuto. Acolho. Ofereço grupo de apoio e até remédio, quem sabe, por um tempo, se achar que ajuda…

Nega tudo. Pergunto se posso ajudar em mais alguma coisa. Não posso. Deixo “a porta aberta”, dizendo que volte quando quiser, mesmo sem consulta marcada. Ela vai embora.

Olho o relógio. 18h25min.  Nem foi tanto tempo assim. Mas o administrativo não vai dar. Termino de escrever. Bebo água. Novo envelope. Ultimo paciente do dia. Ponho a data no topo da pagina. Nome, idade, subjetivo, objetivo. Pronta para começar.

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