O que os olhos não vêem

por Maria Carolina Falcão

Entra a família no consultório. Duas mulheres, um homem e seu jovem irmão. Este fala pelos outros três. Conta que precisam de um exame geral para o passe livre no transporte público. Seu rosto parece cansado, mas seus olhos sorriem levemente.
Volto-me para uma delas, a perguntar como estava se sentindo. Ela me vê, abre um largo sorriso e sinaliza que vai bem, com as mãos. Me pergunta como chamo. Percebo que fala em linguagem de sinais. Eu, pouco. Limitei-me a aprender praticidades médicas durante a formação acadêmica, para questionar sobre doenças… “dor”, “febre”, “náusea”, “alergia”… Não foi nos ensinado que conversaríamos com pessoas, não com doenças. Até agora, pelo que pude perceber. Soletro meu nome, devagar como uma criança que está aprendendo a escrever com giz de cera largo, trêmula. Ela sorri e dana-se a sinalizar para mim, seus irmãos e novamente para mim, balbuciando pacientemente para que eu pudesse entendê-la através de leitura labial. O efeito foi reproduzido por seu irmão, um senhor de barbas brancas e olhos miúdos, apertados como se a luz do consultório estivesse demasiadamente forte. Só compreendi que estavam felizes. Ambos me mostravam como sinalizar seus próprios nomes, como contar, como me expressar. Como professores entusiasmados, pegam o aparelho de pressão, o estetoscópio, me fazem examina-los. Felizes. Alguém fizera esforço para compreendê-los.
O rapaz os silencia, afagando seus braços e mãos, se dirigindo a mim, em tom interpretativo: “Síndrome de Usher, já ouviu falar?”. Na verdade não, era a primeira vez. Uma alteração genética, degenerativa, com diversos espectros de evolução, iniciando com surdez progressiva e perda gradual da visão. Seus irmãos estavam em diferentes estágios: perda parcial da audição; surdez e alguma perda de visão; surdez e cegueira totais. Ele não. Nascera depois, ouvindo e vendo, tendo se formado em Fonoaudiologia e pós-graduado em reabilitação da comunicação. “Minha missão de vida é cuidar deles”.
Infinitas perguntas me vêm à mente, uma mistura de sensações… Admiração, inquietude, emoção. Percebo, então, que a outra senhora permanecia sentada, fitando o infinito, sem esboçar reação alguma. Perda total da visão e audição. Perda. Total. Nenhum som, nenhuma luz, nenhum vislumbre de todo aquele momento comunicativo que há pouco tinha enchido o consultório de sons e sorrisos. Apenas seu ser. Seus pensamentos, talvez? Uma clausura, uma privação solitária, sem comunicação com o externo, vivendo passivamente o resto de sua história. Como proceder? O que fazer? Como examiná-la, sem invadir sua intimidade reclusa? Como transmitir o que penso? Como iniciar um vínculo com essa pessoa tão singular?
As dúvidas certamente transparecem, pois seu irmão me lança um olhar maroto, de quem sabe que irá agradar num belo espetáculo. Chama a senhora pela mão, ela se levanta. Como num balé, as mãos da senhora em concha, sentem os sinais produzidos pelo irmão, que informa onde estão e o que irá acontecer. Seus braços acompanham os movimentos sincronizados do outro, uma conversa dançada, o mundo se reduzia a eles, naquele consultório, num posto de saúde da Tijuca. Saberiam os outros da sala de espera, do posto, da rua, o que estavam perdendo ali?
Toco-a com gentileza. Examino. Pressão, coração, pulmão… Minúcias requeridas pelo tal documento. Sorrio, mesmo sabendo que ela não me vê. Inicialmente sinto-me boba. Mas quem liga? Quando termino, olho para meu intérprete em busca de mais alguma coisa em que possa ser útil. Há mais algo sim. A senhora, de dentro do seu mundo silencioso e distante, sente os detalhes do meu rosto. O cabelo preso, o óculos, nariz… O sorriso que fiz questão de manter. Ela sorri também, sinaliza algo para seus irmãos, provocando uma comoção geral, palmas sutis, gargalhadas sonoras, entreolhares familiares. Senti-me isolada daquele mundo, como se meus sentidos, afinal, atrapalhassem a percepção de tudo o que estava se passando. Como uma estrangeira se perde a achar a graça numa piada, pelo coloquialismo lingüístico. Meus sentidos de nada valiam naquele momento.
Percebendo minha presença, o irmão me coloca a par. Tinham gostado do atendimento e voltariam em breve. Despedem-se, aprendo mais um sinal. Num mundo de cores vibrantes e de sons diversos, às vezes deixamos a suavidade do toque cada vez mais esquecido. Quando acho que já posso chamar o próximo da espera, o irmão me agradece: “ela disse que você toca como quem cuida, obrigado”.
Imagens e palavras não descrevem suficientemente bem. Quem agradece, na verdade, sou eu. Todos os dias.

30 comentários sobre “O que os olhos não vêem

  1. Lindo como todo cuidado deve ser. Apaixonante como todo ser é. Parabéns, Carol… a beleza do seu carinho perceptível, sentida, enxergada, ouvida…

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  2. Ser médico é isso mesmo. Quase todos os dias e se sensibilizar. Se surpreender até conosco mesmo.. Com nossas emoções às vezes.. E ter a felicidade de ver que é essa sensibilidade que nos faz melhores profissionais todos os dias.

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    1. Verdade… o grande barato é ver que nunca estamos totalmente “prontos”, mas que sempre novos aprendizados vão surgir. A MFC tem me ensinado muito sobre mim mesma.
      Obrigada pelo seu comentário 🙂

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  3. Que lindo Carol…Muito emocionado aqui…Parabéns você foi educada para cuidar do próximo! Esse momento lindo vai ficar guardado na vida de muitos…Com certeza vai virar exemplo de como cuidar de seus pacientes. Seus pais devem ter muito orgulho de você. bjs!!!

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    1. Oi professor!
      E veja só como a vida acontece rsrs. Não posso deixar de lembrar da sua influência nessa escolha. Muito obrigada 🙂

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  4. Ótimo texto,Carol. Precisamos de mais profissionais assim.
    apenas com o olhar de atenção, no início do texto vc usa “Percebo que fala em linguagem de sinais.” o mais correto ao ser utilizado é Língua de sinais, pois a LIBRAS é língua.

    grande abraço.

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    1. Oi Vitor!
      Obrigada pela leitura atenciosa e elogios.
      Agradeço o apontamento, mantive dessa forma, porque me preocupo se o termo LIBRAS é conhecido por todos. Mas quanto ao termo “linguagem” foi uma gafe que espero que a minha professora de LIBRAS não tenha percebido!!! rsrs
      Abraço!

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  5. Muito bom sentir a sensibilidade e emoção em um médico. Emoção essa que a levou à relatar essa passagem e percepção para sentir que assim como na vida, aprendemos todos os dias, por mais que sejamos capacitados.

    * Gostei quando se referiu à “linguagens de sinais”, eu sei que o nome é “Libras” mas será que todos saberão…?!

    Parabéns!

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    1. Ana Karla, obrigada pela leitura e comentário! A MFC proporciona conhecer muitas figuras notáveis e aprender com elas todos os dias. É uma das muitas belezas da especialidade.

      Espero que continue encontrando outras boas experiências por aqui,
      Abraço!

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  6. Parabéns, Carol. É gratificante quando o nosso trabalho é reconhecido. Eu atendo em um instituto de cegos e sei como eles são sensíveis.

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    1. Oi Nelson!
      Agradeço a leitura e comentário! São realmente pessoas extremamente sensíveis, o que nos estimula cada vez mais a aprender e melhorar como profissionais! Feliz que tenha se identificado 🙂

      Abraço!

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    1. Obrigada, Alzira!
      Tenho certeza que sempre temos algo a ajustar e melhorar nas nossas trajetórias.
      Espero que você continue nos acompanhando e constatando que tem muitos médicos e médicas até melhores! 🙂

      Abraço

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  7. quanta delicadeza! agradeço por compartilhar suas vivências (:
    acompanho o blog com muito amor e me inspiro muito para ser uma médica de família como vocês!

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