Iô-iô

por Carolina Reigada

A conheci grávida. Ela estava grávida, não eu. Tinha uma barriga grande, como se contivesse dentro um bebê há 9 meses, ou dois deles. Tinha um rosto marrom e muito marcado – de tempo, de história, de sofrimento. Ao olhar, eu daria 40 anos àquele rosto.

Mas ele só tinha 26.

Conversei com ela, afinal, faz parte da consulta. À esse paradoxo cronológico, adiciono mais informações: parando para ouvir, ela parecia ter 12 anos. Ai ai ai.

Pois bem, a cada consulta era uma novidade. Em uma, a pressão estava aumentada. Em outra, havia brigado com a irmã. Em outra, outra e mais outra, a briga havia sido com o marido. Só não brigava com aquele ser em crescimento dentro de si. Pelo contrário, era a única coisa em sua vida que a fazia sorrir. O sorriso era mágico como máquina do tempo. O rosto de 40, parecia ter 30 quando os seus dentes apareciam de dentro daquela boca, aberta em total deleite em um sorriso de esperança.

Mas o brilho no olhar, antevendo o gozo de segurar aquele seu filho, ainda era de criança.

Conheci-a além da grávida. Ela teve um filho, antes desse. Mas não tomou-o para si. Tomaram dela. Disseram que ela não tinha capacidade para cuidar dele. Agora ela não pode mais vê-lo, porque brigou com a tia, que faz as vezes de mãe.

“Sinto falta dele todos os dias.” Dizia o rosto de 40 nessa mulher de 26 com maturidade de 12. A dor nessa frase eu não conseguiria numerar, nem em 100 anos eu entenderia.

Eis que o fruto de sua gestação nasceu. Foi difícil e dolorido. Tive medo. Se as gestantes seguras e maduras sofrem tanta violência obstétrica no Rio de Janeiro, o que seria dessa gestante negra, analfabeta, abandonada e, no sentido prático, uma criança?

E meus temores se concretizaram. Ela conheceu o filho, amamentou o filho, registrou o filho. Ele tinha o nome e sobrenome que escolheu. Ele sugava de seu peito. E ele foi levado para o abrigo. Alguém falou que ela não seria capaz de cuidar de uma criança, de novo.

Ela não desistiu, dessa vez. Ela saiu da maternidade, ainda com os pontos de sutura recentes no ventre, e foi levada ao abrigo pela assistência social, para ver seu filho. Mas não saiu de lá com ele.

Na verdade, ela foi deixada lá. E teve que andar vários quilômetros, com bolsa do bebê, pacotes de fraldas e cicatriz recente, até sua casa, no topo do morro. Era uma guerreira que havia perdido o motivo pelo qual lutar. Aquela cicatriz agora era uma marca de batalha, uma batalha perdida.

Fui à sua casa logo que soube que estava de volta da maternidade, sem seu filho. Sua casa era como uma caverna, uma escavação logo acima da terra. Não tinha janelas. Havia um buraco grande e escuro no teto. Tinha dois cômodos, um com fogão e um com cama e colchão. Era úmido e frio. Mas, se todo o resto da casa era inóspito, o cantinho de seu filho reluzia. As roupas doadas limpas e passadas. A mamadeira. As fraldas. Ela me mostrou tudo que fez para recebe-lo. Ele era sua esperança.

Esperança…talvez de um futuro melhor, de um futuro diferente…ou só de cuidado. Cuidar e sentir-se cuidada. E não estar mais sozinha.

Meu coração já viu e ouviu muita coisa, mas naquele momento ele vacilou. Eu chequei os pontos de sutura, inflamados e esgarçados, e orientei o cuidado. Eu chequei as mamas e percebi que o leite, produzido com tanto amor e afinco, empedrava e machucava. Tive que ajudá-la a ordenhá-lo para fora.

E ali, sentada naquele colchão, naquela caverna úmida, eu me senti suja. Eu a ajudei a colocar aquele leite para fora. E a cada gota que caía era como uma lágrima. Eu faço parte desse sistema de saúde e assistência social que a machucou. E outra gota de leite caía e era como sangue. É culpa minha também que ela vive nessa caverna e eu, em um apartamento. E várias gotas caíam da sua mama, e eu perdi a conta de quantas caíram dos olhos dela, quando ela entregou as armas e entendeu que seu filho não viria mais.

Não caíram gotas dos meus olhos. Meu coração é calejado, já disse, ele não deixa mais que isso aconteça.

Mas deixo que as palavras cumpram sua função de redenção. Quem sabe, se repetidas, elas chegarão a ouvidos e olhos suficientes.

7 comentários sobre “Iô-iô

  1. Obrigado por esse momento de realidade. Emergir desse mar ébrio.
    Não consigo dizer que é belo, pois estaria me deleitando de sofrimento. Mas a sua intenção é bela.

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  2. Há esperança, acredite. Algumas dessas situações podem ser revertidas. Fazem doer a alma da gente e essa dor aumenta a vontade de lutar por essa gente. Se eu puder ajudar de alguma forma estou à disposição.

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  3. Carol,quanta sensibilidade! Obrigado por compartilhar estórias que nos fazem pensar e refletir sobre o cuidado e sobre todo tipo de violência do Estado.

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